sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Banca de rock


      Revistas e jornais. O único e óbvio assunto que tinha tratado até hoje com o dono da banca de jornal que frequento, perto de casa.
       Um senhor  boa praça, com seus 50 ou 55 anos, e traços evidentes da herança genética portuguesa que carrega.
       Barriguinha sobressalente, sobrancelhas e cabelos bem pretos e os óculos sempre encostados no peito, suspensos por um cordão amarrado ao pescoço, que só vão aos olhos quando precisa procurar a última edição da revista de decoração ou separar o pacote de figurinhas da criançada.
       Hoje pedi para ele a indicação de uma revista sobre música que não conseguia encontrar na prateleira.                
       Com a publicação na mão, fui surpreendido por uma pergunta dele:
      - Vai ver o show do Led Zeppelin no cinema? Estreia semana que vem. Onze e meia da noite.
        Surpreso com o gosto musical do dono da banca, que eu preconceituosamente havia imaginado ser totalmente oposto, perguntei:
     - Mas gosta desse tipo de música?
     - Sou roqueiro, toco guitarra. Já tive uma banda.
     - Ah, é? E o que tocavam?
     - Rush, Doors, Led Zepellin
      Confesso que por segundos o imaginei como é hoje, com seus 50 ou 55 anos, dedilhando uma guitarra e mordendo um morcego no palco. Continuei, incrédulo:
      - Coisa de adolescente, né?
      - Mais ou menos. Chegamos a gravar um disco, abri alguns shows pro Joelho de Porco, participei de festivais.
      - E como se chamava a banda?
      - Cão Fila. Não era esse o nome original, mas mudamos por sugestão da Rita Lee.
      - Rita Lee? Conhece a Rita Lee? Tocava nos mesmos ambientes que a Rita Lee?
      - Frequentamos os mesmos palcos durante a segunda metade da década de 70.
      A década de 70 foi extremamente produtiva para o rock nacional, mas é um período pouco valorizado pelos especialistas.
      Os músicos de bandas daquele período como Made in Brazil, Joelho de Porco e O Terço abriram caminho e foram, ao mesmo tempo, encobertos pelas bandas dos anos 80.
      De volta para a banca, a pergunta inevitável para encerrar a conversa:
     - Mas o que houve? Desistiu da música?
     - Quis me casar, precisava de dinheiro, emprego estável, e larguei a banda. Estou separado, da banda e da minha mulher, já faz algum tempo.
     - Quero ouvir seu som. Me traz as músicas?
     - Claro, semana que vem te dou o disco digitalizado.
     - Bom, quanto é minha revista?
     - Dez e cinquenta.
     - E com autógrafo?
     - Mesmo preço!
      E fui embora com minha revista inesperadamente autografada.
      Amanhã, quando for comprar o jornal, volto pro bis.

2 comentários:

  1. EEEE Rafael Colombo, descobri o seu blog rapaz. Agora, sempre que possível, venho aqui para ler um pouco dessas histórias interessantes que vc posta nesse espaço. Sempre que possível, ouço o Manhã Bandeirantes e isso só acontece por observar imparcialidade naquele agradável programa da tradicionalíssima Radio Bandeirantes, sobre o comando do competente José Paulo de Andrade, Salomão Ésper e você, lógico! Só lamento por de hoje em diante, não ser mais possível, escutar os sempre precisos comentários não menos imparciais do saudoso Joelmir Beting mas, vamos em frente né? Quanto ao post acima, que curioso né? Um jornaleiro roqueiro das antigas. É meu caro, a vida é mesmo surpreendente. Abço

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  2. Estive a ver e ler algumas coisas, não li muito, porque espero voltar mais algumas vezes, mas deu para ver a sua dedicação e sempre a prendemos ao ler blogs como o seu.
    Gostei de tudo o que vi e li.
    Vim também desejar muita paz,saúde e grandes vitórias.
    São os votos do Peregrino E Servo.
    Abraço.
    Peregrino E Servo.

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