terça-feira, 31 de maio de 2011

Bike

Faz uns 20 anos desde minha última vez com ela. Confesso que faz um bom tempo que não dou a atenção necessária para quem foi tão importante em minha vida. Tenho sido inegavelmente omisso. Apesar de minha indiferença, a magrela - que vergonha de revelar detalhes íntimos- ainda estava lá. Me esperando. No mesmo lugar onde a deixei. As marcas do tempo são evidentes.
Está murcha, empoeirada, enferrujada. E tem teias de aranha. Deve ser a falta de uso. A única coisa que posso fazer agora é dar-lhe um belo trato e depois disso, colocá-la pra rodar.
Foi o prolongamento da ciclofaixa até perto de casa que me fez lembrar da bicicleta esquecida na garagem do prédio.
Porque não aproveitar o domingo de sol e sentir novamente o vento batendo no rosto, ziguezaguear por aí sem rumo nenhum e, finalmente, sem aquelas rodinhas ridículas pra me envergonhar?
Porém, as condições da minha "bike" não eram nada animadoras. Pneus furados, falta de óleo, freio dianteiro gasto. E pior. Onde estavam aquelas fitinhas alvinegras que preguei no guidão pra comemorar o título brasileiro do timão em 90? Algum vizinho palmeirense arrancou, certamente.
Mas nada disso vai estragar meu domigo de sol.
Seu Pereira, o "bicicleteiro" do bairro estava de plantão. Diz a lenda que ele trocava as peças novas das nossas bicicletas por outras bem usadas. Uma espécie de recauchutagem involuntária.
Agora, 20 anos mais velho, não deixaria ele me passar pra trás.
Seu Pereira levou minha parceira pra oficina. Voltou rápido. O diagnóstico não foi positivo.
Pra curtir a ciclofaixa teria que trocar correia, freio, pneus. A conta? R$ 120,00.
Mas nada disso vai estragar meu domingo de sol. Dinheiro bem gasto.
Na ciclofaixa só conseguia pensar em como fui insensível ao deixar minha amiga tanto tempo largada. Isso jamais se repetirá!
Prometi pra mim mesmo, ali no asfalto, que seria um frequentador assíduo daquela área de lazer.
Três horas depois voltei ao prédio. Esgotado, mas feliz.
Ainda na rua pude sentir o olhar de reprovação do porteiro e de uma moradora que não encontrava fazia muito tempo.
Fui abordado já na garagem:
- Pediu autorização de alguém pra sair com minha bicicleta?
- Como assim? É minha! Acabei de reformar, gastei R$ 120,00!
-Programei a semana toda para consertar minha bike e curtir a ciclofaixa e você usa sem pedir?
Aos poucos percebi que havia cometido um terrível engano.
Usei e reformei a bike errada.
Algumas horas depois descobri que a minha tinha sido vendida anos antes por um outro porteiro demitido do prédio. Na época, fui poupado dessa terrível notícia
Só resta agora procurar uma alternativa até o próximo domingo.
Aquele velotrol ali é de alguém?

4 comentários:

  1. Isso é verdade? Ou apenas um texto "engraçadinho"? Pois se for vdd, vc tem mesmo qu escrever um livro,pois vc é o "cara" das histórias engraçadas. Morri de rir! Abçs

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  2. Sensacional. Verdade ou não, é divertido e muito bem escrito. Valeu pela risada.

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  3. Grande Rafa, essa história foi boa hein, ainda bem que não investiu tanto na magrela porque nestas horas nos culpamos por deixar os objetos de lado e gastamos mais do que a bike ja vale......abraço, batata.

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