quarta-feira, 12 de maio de 2010

O vendedor feliz

Dizem que o tempo ressalta as características de um indivíduo. Tanto para o bem quanto para o mal.
Ou seja, um cidadão calmo e compreensivo tende a se tornar um velhinho ainda mais pacífico, boa gente. Um Papai Noel.
Já um sujeito intolerante certamente será mais ranzinza e impaciente ao longo dos anos. Um Gargamel.
Embora ainda por volta dos 30, noto que alguns traços da minha personalidade estão cada vez mais evidentes.
Um deles é a má vontade com vendedores.
De carro, roupa, imóveis, não importa o artigo.
A minha rejeição aos comerciantes pode ser explicada de forma simples: tento evitá-los porque não sou um bom consumidor.
Não sei pechinchar, por exemplo. Sou presa fácil pra quem tem uma boa lábia. Basta insistir um pouquinho que levo o que preciso e o que não preciso da loja, de onde invariavelmente saio me sentindo um pato. Dizer que não gostei de alguma coisa então é um sacrifício!
Por isso, optei faz algum tempo pelo comércio eletrônico.
Na internet, se tentam me empurrar algo que não quero, clico no X e fecho a página com a oferta
sem me preocupar se estou ferindo os sentimentos de um trabalhador que depende daquela comissão pra jantar à noite.
No entanto, durante um passeio despretensioso pelo shopping no fim de semana passado me interessei por um tênis. Lindo, barato, do jeito que queria faz algum tempo.
Mas, como fazer? A loja está cheia de.....vendedores!!!
Vão se atirar na minha frente, fazer experimentar 200 pares diferentes, andar pela loja feito um paspalho pra ver se não pega no calcanhar. É muito chato.
Depois de meia hora na vitrine tentando bolar um esquema para entrar despercebido decidi arriscar.
Esperei que outras pessoas entrassem na loja para desviar o foco.
Passei pisando firme sem olhar para os lados até a estante.
Quando levantei o braço para alcançar meu tênis, a estratégia ruiu:
- Fique à vontade!! Esse modelo chegou ontem. Tá lindo, né? Qual seu número?
Pronto. O vendedor me achou. E, além de tudo, era um vendedor feliz, empolgado. Gesticulava muito. Deve ser daquele tipo que faz aula de teatro. Muito expressivo. Tudo o que eu não queria.
Bom, tentei me concentrar na missão, mas não teve jeito.
Sempre que olhava pra trás ele estava lá me olhando, sorridente que só ele.
Na hora, pensei o seguinte: prefiro um vendedor deprimido, que fique sentado lá no fundo pensando em como se matar enforcado com um cadarço qualquer e me deixe à vontade pra escolher um tênis com calma.
Resultado dessa história: desisti da compra.
Fui fingindo que estava olhando outras ofertas até sair da loja.
Procurei um par igual na internet.
Foi entregue ontem.
Está um pouco apertado, pegando no calcanhar.
Talvez tenha que trocar.
Vou ao shopping, volto já.

11 comentários:

  1. Sensacional como sempre...
    ROJÃO

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  2. Benedito Mervy Colombo13 de maio de 2010 11:01

    Escreva mais. Está ótimo.

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  3. Adorei o texto, Rafael!
    Muito bom mesmo.
    Beijo

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  4. Ahahahah adorei! muito bom mesmo! bjs

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  5. ....mais esse tênis de melancia eu não recomendo....rsrs

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  6. Voltei aqui para dizer como sua leitora e fã que tenho uma queixa, na verdade uma pedido...

    ESCREVA MAIS!!!!!

    Beijos

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  7. Rsrsrs, muito bom Rafa.

    Acredita que eu me vi nessa cena? Tbm detesto fazer compras.

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  8. Oi Rafael,

    Faz tempo que não entro no seu blog.
    Adorei o texto.
    Parabéns.

    Um abraço,

    Vanessa Gomes

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  9. Rafael, adorei o seu texto!!!!!Posso fazer parte e ser uma de suas seguidoras?????! Um abraço Tania.

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  10. Interessante a história , mas do fundo do coração , me apaixonei pelo tênis e queria tanto , tanto e tanto ...

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