sábado, 20 de fevereiro de 2010

Química

Sempre fui um péssimo aluno. A escola, pra mim, foi sempre uma tortura. Desde pequeno, nunca tive a menor disposição pra acompanhar explicações de professores. Estava sempre desatento, olhando pro nada, pensando em sei lá o quê. Mais ou menos aos 10 anos inventei que tinha alergia ao pó de giz, só pra não ter que ir a lousa fazer exercícios de matemática, português, etc. Conto nos dedos às vezes que fiz lição de casa. Meu boletim ficava retido todo bimestre, por causa do excesso de notas vermelhas. Enfim, o desinteresse era absoluto. Até o término do primeiro grau ainda me preocupava com notas. Sabia que tinha ido mal nas provas e cheguei a perder algumas noites de sono prevendo o que viria no dia seguinte, quando os exames seriam entregues. Depois disso, no segundo grau, desencanei completamente. Colhi uns bons pares de nota zero, a única que vinha escrita por extenso no boletim. Pra não deixar dúvida. Meus finais de ano eram sempre iguais.
Chegava ao útimo bimestre precisando de dezoito, dezenove pontos pra passar de ano. Meu pior desempenho era em química. No segundo colegial, abri o o mês de dezembro em situação desesperadora. Nem o Mcgyver seria capaz de evitar a iminente explosão da bomba que me faria repetir de série. Tinha somado apenas 8 de 30 pontos possíveis. Ou seja, já estava em recuperação, mesmo que na última hora tivesse um improvável desempenho que me desse o Prêmio Nobel de Química. Nessa altura do campeonato já não tinha muito o que perder. E resolvi testar limites. Havia uma prova marcada para uma segunda de manhã, às 7h15, logo na primeira aula. Como de costume, sequer sabia o que ia cair. O nome da professora era Elza. Me deu aula nos três anos do colegial. Doze semestres, portanto. Tirei doze notas vermelhas. Mas, sei não era nada pessoal.
Bom, voltando àquela segunda, a professora Elza avisou aos alunos que a prova seria adiada:
- Tive problemas particulares e não pude elaborar a prova, que será aplicada semana que vem.
Lá do fundo da sala, última carteira, onde me escondia, fiquei cego pela sede de vingança e pensei:
- Chegou minha hora!
Sem pensar, levantei o braço e pedi pra falar:
-Professora, me desculpe, mas estudei pra fazer essa prova. Preciso da nota. Perdi meu fim de semana estudando!
Mentira deslavada. Por que estava falando aquilo? Mas, não me dei por satisfeito:
- Assim como cumpri com minha responsabilidade, deveria ter cumprido com a sua!
Absolutamente sem reação, a professora se aproxima de mim e me dá o golpe certeiro:
- Legal. Vou preparar um prova e você fará agora. Só você.
A classe toda ficou muda. Me senti acoado. Mas, fui rápido:
- Ou faz todo mundo, ou não faz ninguém. Não pode me tratar de jeito diferente do restante!
Venci a batalha, mas perdi a guerra.
A professora Elza, abalada, volta para sua mesa e começa a chorar. Muito. De soluçar.
Todos meus colegas, que permaneciam em silêncio, me olhavam como se tivesse cometido um assassinato. Enquanto ela saía da sala, peguei meu caderno, que obviamente estava em branco sem nada anotado ao longo do ano, para fingir que estava estudando.
Minutos depois a coordenadora do colégio, Irmã Clariciana, me chamou para uma conversa:
-Foi lamentável o que fez hoje.
Eu , já assustado, não quis admitir:
- Irmã, eu estudei (mentir pra freiras dá um azar danado). Por que ela não fez a prova?
-A mãe dela está no hospital, passou mal durante o fim de semana.
Com as costas pesadas pela culpa e uma advertência formal nas mãos fui embora me sentindo muito mal.
A semana demorou pra passar.
Na segunda-feira seguinte cheguei nervoso, tenso, até que a professora anunciou:
-Pessoal, vamos para a última prova do ano.
Ela mal terminou de falar e levantei minha mão, lá de trás.
Mesmo assustada, prevendo um novo petardo, Elza me deixou falar:
- Professora, peço desculpas pelo que fiz na semana passada. Foi feio. Estou tenso, prestes a bombar. Espero que me perdoe.
A classe toda aplaudiu. Ela caminhou até minha carteira, lá onde me escondia. e me deu um beijo. Depois, deixou a prova comigo, cheia de fórmulas que eu não tinha a menor idéia de como responder.
Meu resultado? Dois e meio. Precisava de vinte. Logo, fui pra recuperação precisando de dezessete e meio. Mas, deu tudo certo. Passei de ano e a mãe dela saiu do hospital.
Fui pro terceiro ano...colegas diferentes, sala diferente, mas a professora de química..........