quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Na costela

Irresponsabilidade tem idade. E costuma atingir os seres humanos do gênero masculino lá pelos 13, 14 anos, na chamada pré-adolescência. Fase de afirmação, de reconhecimento de limites.
Os meus ficaram bem claros em um domingo de chuva em São Paulo. Fui ao Morumbi com dois amigos assistir a um clássico Corinthians x Santos. Pegamos um ônibus até o estádio lotado de torcedores. Confesso que sempre me empolguei além da conta em jogos de futebol. Nada de briga, confusão. Pelo contrário. Mas a euforia contagiante serviu diversas vezes como combustível pra que eu cometesse um ou outro desatino.
De volta ao Corinthians x Santos, fui ao estádio sem ingresso. Dinheiro no bolso, bem guardado, pra comprar na bilheteria.
Filas enormes. Logo fui cercado por um monte de "irmãos":
-Aí, irmão. Falta um real pra completar meu ingresso! É nóis, Gaviões!
- Desculpe, estou com dinheiro contado - respondi intimidado.
Mais ou menos 40 minutos depois, cheguei ao guichê:
- Uma arquibancada, por favor.
No momento em que a atendente me deu o ingresso, meus "irmãos" tentaram me roubar.
Resultado: ingresso rasgado, bolso vazio.
E agora? O que fazer se tinha o dinheiro certinho para um, só um ingresso?
Um amigo me deu uma conselho:
- Tem um portão que dá pra pular! Vamos lá!
Eu, inexperiente, louco pra entrar no campo, topei a parada.
Subimos a Giovanni Gronchi e cheguei ao tal portão onde "era fácil entrar".
Tinha uns 3 metros de altura e estava amarrado por uma corrente e um cadeado.
Tremi, mas não refuguei na frente do pessoal.
Respirei fundo. Meus olhos se encheram de lágrimas. As mão pingavam de suor e o coração batia na boca. Acelerei o passo e, sem a menor convicção, coloquei o pé em uma grade.
Sucesso. Os amigos apoiavam lá embaixo. Segundo passo. Perfeito. Ia dar certo. Terceiro passo. O portão se abre aos poucos, mas fica amarrado pela tal corrente, presa em um cadeado.
Com isso, minhas pernas se distanciaram e o máximo que podia fazer era tentar me equilibrar para não me esborrachar a mais de 2 metros de altura.
Assim que ameacei pular e desistir daquela loucura toda sinto alguém agarrar minha bermuda. Ele usava roupa cinza. Tinha um cacetete na mão.
O PM tinha sangue nos olhos. Me deu um soco com a mão aberta na altura da costela. O ar sumiu, a vista ficou turva, mas em meio minuto já conseguia respirar novamente.
O PM me deu mais um empurrão e tudo bem. Saí no lucro.
Os amigos entraram e eu só ouvi os gols pelo rádio, em uma barraca de pernil do lado de fora.
No dia seguinte, ao dobrar o corpo para levantar da cama e ir pra escola sinto uma dor terrível na costela. Que só passou depois de 3 dias. 1 x0 pro PM. 3x1 pro Santos.