quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Amigo secreto

Estamos em dezembro.
Foi bem mais rápido do que você esperava, não foi?
O último mês do ano chega repleto de eventos e compromissos que geram boas doses de preocupação e angústia. Onde passar o Ano Novo? O Natal vai ser na casa da mãe ou da sogra? Como evitar que o tio exagere na caipirinha e vomite a ceia no sofá como no ano passado?
São dúvidas pertinentes e comuns para boa parte das famílias brasileiras, que optam pela comemoração convencional de fim de ano. Papai Noel, nozes, romã, tudo isso.
Mas, um capítulo das festividades sempre me causou desconforto especial.
O amigo secreto da empresa. Todo ano o mesmo enredo. Eu achava que ninguém ia lembrar.
Até que um desalmado interrompe o trabalho e diz em voz alta:
- E aí? Não vai ter amigo secreto? Que povo desanimado!!!
Pronto. Lá vamos nós mais uma vez para uma sessão explícita e conjunta de constrangimento.
Vai tentar não participar? Será mais pressionado que o Dunga depois da eliminação do Brasil na Copa. Do que a Dilma na divisão de cargos do próximo governo. Vão passar o ano inteiro de cara virada pra você:
-Rafael se acha, né? Sabia que não participou do amigo secreto?
- Pois é. Deve estar sabendo que vai ser demitido ano que vem e se rebelou contra a empresa.
Tenha certeza. É mais fácil aderir.
O primeiro passo d tortura é o sorteio do amigo secreto. Geralmente uma fraude. Sobram ou faltam participantes. Tem gente que tira o papel, não gosta do resultado e devolve pro pote. Tem gente que pega dois. Gente que guarda pro parceiro que está no café.
Eu nunca dei sorte. Sempre tirei ou fui escolhido por colegas distantes.
Sem conseguir sequer ligar o nome a pessoa tinha que sair pedindo referências:
- O Robertinho do almoxarifado gosta de rock ou axé?
- Paulo, do estoque, usa sempre essa camiseta estilo Fiuk, com gola em V?
E a entrega dos presentes então? Existe dia mais constrangedor que esse? Todo mundo chegando pra trabalhar com pacotes iguais da Laselva?
- Bom, meu amigo secreto é uma pessoa meio calada. Não o conheço muito bem. Mas, sei que é gente boa. Espero conviver mais com ele ano que vem. É o Joselitoooo...eeee....uhuhuuu.
E a cena se repete umas 50 vezes. Até chegar em outro momento padrão do amigo secreto:
- A Janete não pode vir, mas pediu pra entregar o presente dela pro Edmilson. Que também não veio, mas pediu pra deixar esse pacote pra Janete...Cadê? Ih...faltou hoje.
Ao longo de tantos anos no mercado de trabalho já voltei pra casa com cada mico: camiseta que não serve, livro que ficou na gaveta.
Por isso, em 2010 tomei uma decisão radical:
Vou pedir um vale-CD.

sábado, 31 de julho de 2010

Dialeto

Cada "tribo" tem seu código.
Gírias e expressões são uma das formas mais utilizadas pelos seres humanos para se identificar como, por exemplo, amante de um estilo musical, integrante de uma seita, torcedor de um time.
Usam termos que só se justificam desde que ditos pra gente do seu próprio mundo.
Motoboys, roqueiros, hare-krishna. Todos têm um dialeto.
Mas, a comunidade que mais aperfeiçoou a transformação de palavras em modo de "juntar os seus" foi a dos maçons. É fascinante. Você está em uma roda de conhecidos e de repente um deles, sabidamente maçom, diz:
- Sabe o Robertinho, do almoxarifado? É maçom.
- Como você sabe?
- Foi uma palavra que ele disse. É um código que só nós reconhecemos.
Sua primeira reação nessa hora é a de se sentir absolutamente inferiorizado.
- Porque o Robertinho do almoxarifado e não eu? Nunca me quiseram na maçonaria ?
A segunda é tentar identificar a palavra usada:
- Será que foi a hora em que ele pediu a MOSTARDA ao garçom? Ou quando disse que ia embora pois tinha que passar na LAVANDERIA?
Impossível descobrir. Melhor deixar pra lá. Afinal, agora também pertenço a um grupo, uma comunidade. Tenho um idioma próprio.
Depois de muitos anos consegui decodificar o que dizem na padaria perto de casa.
Por muito tempo me senti um incompreendido naquele ambiente.
Um café com leite na xícara? Esquece. Sempre vinha no copinho.
Um pão com pouca manteiga? Impossível. Vinha melado.
Uma média com pouco café? Vinha escura.
Passei então a prestar atenção em gente mais experiente que eu. Gente com as marcas daquele balcão nos braços. Cheiro de gordura da chapa impregnado nas rugas.
E notei que eram diferentes.
Nunca pediam um pão com pouca manteiga. Mas um pão só com o cheiro da manteiga. Pronto.
Nunca pediam um café com leite. Coisa de criança. Pediam uma média. Que pode ser com ou sem espuma, clara ou escura, enfim ao gosto do freguês.
Um café com leite é sempre servido no copinho. Na xícara pequena é expresso.
Pão sem miolo? Na canoa.
Só na chapa? Chapado.
Sem passar na chapa? Um direto.
Agora imprima esse texto, corra pra padaria mais próxima e bom apetite!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O vendedor feliz

Dizem que o tempo ressalta as características de um indivíduo. Tanto para o bem quanto para o mal.
Ou seja, um cidadão calmo e compreensivo tende a se tornar um velhinho ainda mais pacífico, boa gente. Um Papai Noel.
Já um sujeito intolerante certamente será mais ranzinza e impaciente ao longo dos anos. Um Gargamel.
Embora ainda por volta dos 30, noto que alguns traços da minha personalidade estão cada vez mais evidentes.
Um deles é a má vontade com vendedores.
De carro, roupa, imóveis, não importa o artigo.
A minha rejeição aos comerciantes pode ser explicada de forma simples: tento evitá-los porque não sou um bom consumidor.
Não sei pechinchar, por exemplo. Sou presa fácil pra quem tem uma boa lábia. Basta insistir um pouquinho que levo o que preciso e o que não preciso da loja, de onde invariavelmente saio me sentindo um pato. Dizer que não gostei de alguma coisa então é um sacrifício!
Por isso, optei faz algum tempo pelo comércio eletrônico.
Na internet, se tentam me empurrar algo que não quero, clico no X e fecho a página com a oferta
sem me preocupar se estou ferindo os sentimentos de um trabalhador que depende daquela comissão pra jantar à noite.
No entanto, durante um passeio despretensioso pelo shopping no fim de semana passado me interessei por um tênis. Lindo, barato, do jeito que queria faz algum tempo.
Mas, como fazer? A loja está cheia de.....vendedores!!!
Vão se atirar na minha frente, fazer experimentar 200 pares diferentes, andar pela loja feito um paspalho pra ver se não pega no calcanhar. É muito chato.
Depois de meia hora na vitrine tentando bolar um esquema para entrar despercebido decidi arriscar.
Esperei que outras pessoas entrassem na loja para desviar o foco.
Passei pisando firme sem olhar para os lados até a estante.
Quando levantei o braço para alcançar meu tênis, a estratégia ruiu:
- Fique à vontade!! Esse modelo chegou ontem. Tá lindo, né? Qual seu número?
Pronto. O vendedor me achou. E, além de tudo, era um vendedor feliz, empolgado. Gesticulava muito. Deve ser daquele tipo que faz aula de teatro. Muito expressivo. Tudo o que eu não queria.
Bom, tentei me concentrar na missão, mas não teve jeito.
Sempre que olhava pra trás ele estava lá me olhando, sorridente que só ele.
Na hora, pensei o seguinte: prefiro um vendedor deprimido, que fique sentado lá no fundo pensando em como se matar enforcado com um cadarço qualquer e me deixe à vontade pra escolher um tênis com calma.
Resultado dessa história: desisti da compra.
Fui fingindo que estava olhando outras ofertas até sair da loja.
Procurei um par igual na internet.
Foi entregue ontem.
Está um pouco apertado, pegando no calcanhar.
Talvez tenha que trocar.
Vou ao shopping, volto já.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Química

Sempre fui um péssimo aluno. A escola, pra mim, foi sempre uma tortura. Desde pequeno, nunca tive a menor disposição pra acompanhar explicações de professores. Estava sempre desatento, olhando pro nada, pensando em sei lá o quê. Mais ou menos aos 10 anos inventei que tinha alergia ao pó de giz, só pra não ter que ir a lousa fazer exercícios de matemática, português, etc. Conto nos dedos às vezes que fiz lição de casa. Meu boletim ficava retido todo bimestre, por causa do excesso de notas vermelhas. Enfim, o desinteresse era absoluto. Até o término do primeiro grau ainda me preocupava com notas. Sabia que tinha ido mal nas provas e cheguei a perder algumas noites de sono prevendo o que viria no dia seguinte, quando os exames seriam entregues. Depois disso, no segundo grau, desencanei completamente. Colhi uns bons pares de nota zero, a única que vinha escrita por extenso no boletim. Pra não deixar dúvida. Meus finais de ano eram sempre iguais.
Chegava ao útimo bimestre precisando de dezoito, dezenove pontos pra passar de ano. Meu pior desempenho era em química. No segundo colegial, abri o o mês de dezembro em situação desesperadora. Nem o Mcgyver seria capaz de evitar a iminente explosão da bomba que me faria repetir de série. Tinha somado apenas 8 de 30 pontos possíveis. Ou seja, já estava em recuperação, mesmo que na última hora tivesse um improvável desempenho que me desse o Prêmio Nobel de Química. Nessa altura do campeonato já não tinha muito o que perder. E resolvi testar limites. Havia uma prova marcada para uma segunda de manhã, às 7h15, logo na primeira aula. Como de costume, sequer sabia o que ia cair. O nome da professora era Elza. Me deu aula nos três anos do colegial. Doze semestres, portanto. Tirei doze notas vermelhas. Mas, sei não era nada pessoal.
Bom, voltando àquela segunda, a professora Elza avisou aos alunos que a prova seria adiada:
- Tive problemas particulares e não pude elaborar a prova, que será aplicada semana que vem.
Lá do fundo da sala, última carteira, onde me escondia, fiquei cego pela sede de vingança e pensei:
- Chegou minha hora!
Sem pensar, levantei o braço e pedi pra falar:
-Professora, me desculpe, mas estudei pra fazer essa prova. Preciso da nota. Perdi meu fim de semana estudando!
Mentira deslavada. Por que estava falando aquilo? Mas, não me dei por satisfeito:
- Assim como cumpri com minha responsabilidade, deveria ter cumprido com a sua!
Absolutamente sem reação, a professora se aproxima de mim e me dá o golpe certeiro:
- Legal. Vou preparar um prova e você fará agora. Só você.
A classe toda ficou muda. Me senti acoado. Mas, fui rápido:
- Ou faz todo mundo, ou não faz ninguém. Não pode me tratar de jeito diferente do restante!
Venci a batalha, mas perdi a guerra.
A professora Elza, abalada, volta para sua mesa e começa a chorar. Muito. De soluçar.
Todos meus colegas, que permaneciam em silêncio, me olhavam como se tivesse cometido um assassinato. Enquanto ela saía da sala, peguei meu caderno, que obviamente estava em branco sem nada anotado ao longo do ano, para fingir que estava estudando.
Minutos depois a coordenadora do colégio, Irmã Clariciana, me chamou para uma conversa:
-Foi lamentável o que fez hoje.
Eu , já assustado, não quis admitir:
- Irmã, eu estudei (mentir pra freiras dá um azar danado). Por que ela não fez a prova?
-A mãe dela está no hospital, passou mal durante o fim de semana.
Com as costas pesadas pela culpa e uma advertência formal nas mãos fui embora me sentindo muito mal.
A semana demorou pra passar.
Na segunda-feira seguinte cheguei nervoso, tenso, até que a professora anunciou:
-Pessoal, vamos para a última prova do ano.
Ela mal terminou de falar e levantei minha mão, lá de trás.
Mesmo assustada, prevendo um novo petardo, Elza me deixou falar:
- Professora, peço desculpas pelo que fiz na semana passada. Foi feio. Estou tenso, prestes a bombar. Espero que me perdoe.
A classe toda aplaudiu. Ela caminhou até minha carteira, lá onde me escondia. e me deu um beijo. Depois, deixou a prova comigo, cheia de fórmulas que eu não tinha a menor idéia de como responder.
Meu resultado? Dois e meio. Precisava de vinte. Logo, fui pra recuperação precisando de dezessete e meio. Mas, deu tudo certo. Passei de ano e a mãe dela saiu do hospital.
Fui pro terceiro ano...colegas diferentes, sala diferente, mas a professora de química..........

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Na costela

Irresponsabilidade tem idade. E costuma atingir os seres humanos do gênero masculino lá pelos 13, 14 anos, na chamada pré-adolescência. Fase de afirmação, de reconhecimento de limites.
Os meus ficaram bem claros em um domingo de chuva em São Paulo. Fui ao Morumbi com dois amigos assistir a um clássico Corinthians x Santos. Pegamos um ônibus até o estádio lotado de torcedores. Confesso que sempre me empolguei além da conta em jogos de futebol. Nada de briga, confusão. Pelo contrário. Mas a euforia contagiante serviu diversas vezes como combustível pra que eu cometesse um ou outro desatino.
De volta ao Corinthians x Santos, fui ao estádio sem ingresso. Dinheiro no bolso, bem guardado, pra comprar na bilheteria.
Filas enormes. Logo fui cercado por um monte de "irmãos":
-Aí, irmão. Falta um real pra completar meu ingresso! É nóis, Gaviões!
- Desculpe, estou com dinheiro contado - respondi intimidado.
Mais ou menos 40 minutos depois, cheguei ao guichê:
- Uma arquibancada, por favor.
No momento em que a atendente me deu o ingresso, meus "irmãos" tentaram me roubar.
Resultado: ingresso rasgado, bolso vazio.
E agora? O que fazer se tinha o dinheiro certinho para um, só um ingresso?
Um amigo me deu uma conselho:
- Tem um portão que dá pra pular! Vamos lá!
Eu, inexperiente, louco pra entrar no campo, topei a parada.
Subimos a Giovanni Gronchi e cheguei ao tal portão onde "era fácil entrar".
Tinha uns 3 metros de altura e estava amarrado por uma corrente e um cadeado.
Tremi, mas não refuguei na frente do pessoal.
Respirei fundo. Meus olhos se encheram de lágrimas. As mão pingavam de suor e o coração batia na boca. Acelerei o passo e, sem a menor convicção, coloquei o pé em uma grade.
Sucesso. Os amigos apoiavam lá embaixo. Segundo passo. Perfeito. Ia dar certo. Terceiro passo. O portão se abre aos poucos, mas fica amarrado pela tal corrente, presa em um cadeado.
Com isso, minhas pernas se distanciaram e o máximo que podia fazer era tentar me equilibrar para não me esborrachar a mais de 2 metros de altura.
Assim que ameacei pular e desistir daquela loucura toda sinto alguém agarrar minha bermuda. Ele usava roupa cinza. Tinha um cacetete na mão.
O PM tinha sangue nos olhos. Me deu um soco com a mão aberta na altura da costela. O ar sumiu, a vista ficou turva, mas em meio minuto já conseguia respirar novamente.
O PM me deu mais um empurrão e tudo bem. Saí no lucro.
Os amigos entraram e eu só ouvi os gols pelo rádio, em uma barraca de pernil do lado de fora.
No dia seguinte, ao dobrar o corpo para levantar da cama e ir pra escola sinto uma dor terrível na costela. Que só passou depois de 3 dias. 1 x0 pro PM. 3x1 pro Santos.