terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Primeiro emprego

Meu primeiro emprego surgiu pela porta dos fundos. Era recém-formado na escola, aos 17 anos. Dois amigos que tinham estudado comigo estavam trabalhando em um escritório. Um deles passou subitamente a sentir uma ardência incômoda. Foi diagnosticado com hemorróidas. Topei cobrir o período de 30 dias em que ele estaria se recuperando, deitado de barriga pra baixo no sofá. Assim entrei no mercado de trabalho. Sem nenhuma glória.
Até hoje não sei muito bem o que faziam naquele lugar. Era um escritório que emitia certificados de qualidade ISO 9000 para a indústria naval. Mas, tanto faz. Não precisava me meter com isso. Minha atribuição mais importante era trocar o tonner da impressora. Além disso, separava correspondências, ia ao banco pagar contas. Era office boy. Na realidade, aquele mês representou pra mim uma extensão do período escolar, já que passava boa parte do dia fazendo brincadeiras e piadas de colégio. Uma das minhas diversões era ouvir colegas de trabalho contando sobre eventuais “favores sexuais” prestados pela faxineira no fundo do escritório. Ela, uma senhora, devia ter, na época, uns 65 anos. Não tinha um dedo da mão. Mesmo assim, fazia loucuras nos intervalos de trabalho. É o que dizem. Talvez a falta do dedo fosse o charme. Vai saber.
Meu chefe era uma outra figura interessante. Exercia ao mesmo tempo a função de economista e marceneiro. Tinha uma oficina recentemente inaugurada e vivia atrapalhado com a jornada dupla. Talvez por isso tenha me esquecido por duas horas e meia em um posto de gasolina em uma tarde de muito calor. A empresa tinha um Uno caindo aos pedaços que usavamos para serviços gerais. Eu ia pagar contas, mas o carro estava sem gasolina. Parei no posto, sem dinheiro. O caixa estava vazio. Abasteci e pedi ao frentista que aguardasse um pouco pois a grana estava chegando. Fiquei parado feito um poste até que alguém se lembrasse do “estagiário”.
Mas, isso não foi o pior.
O cara mais importante do escritório era conhecido por Engenheiro Bueno.
Ele estava em viagem quando consegui o emprego. Portanto, só o conhecia pela fama de carrasco.
Um dia qualquer, toca o meu ramal.
- Alô
- Alô, quem fala?
- Engenheiro Bueno. Me transfira para o ramal 3232.
Comecei a tremer imediatamente. Afinal, o carrasco estava na linha. Seco. Nem perguntou quem eu era. Participava de uma reunião em Londres. Eu nunca tinha transferido uma ligação na vida.
Já imaginam no que deu.
Bom, nervosismo vencido fui tomar um café. Na volta, meu colega com os olhos arregalados:
-Foi você quem atendeu o Engenheiro Bueno?
-Sim
- Ele estava puto no telefone! Disse que esperou na linha como um idiota por 5 minutos no meio de uma reunião em Londres, na frente dos caras da matriz. E queria saber quem o atendeu.
-Eu pensei que tivesse transferido a ligação, mas pelo jeito apenas coloquei o telefone no mudo!
Seria o fim de minha carreira? Sairia de lá como entrei, pela porta dos fundos?
Que nada. Ele voltou de viagem e nem se lembrou de mim.
Um mês depois, com meu amigo recuperado e sem aquela ardência incômoda, sai pela porta da frente.

4 comentários:

  1. Rafael
    Seu texto me fez lembrar os tempos de boy no centro. Dava entrada no papel para pagar o título que seria protestado e ia para o cinema. Tempo de espera no cartório : 2 a 3 horas.
    Nunca fui tanto ao cinema como nesta época.
    Abraços
    Pedro da Silveira

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  2. Rafael,parabéns bonita cronica da outra vez por favor NÃO atenda o telefone.Cesar

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  3. Tião da Dna Lourdes26 de julho de 2010 20:20

    Belas lembranças.... Infelizmente fiquei com cicatrizes e sequelas da violenta Hemorróida, e nunca pude me gabar como vc de um traseiro liso e dign de ser apreciado por todos, mas enfim.... Me contentei em nao usa-lo salvo para necessiades hehehehe agora melhorado da subita dor anal, venho lhe parabenizar pelo texto.
    mas isso é outra estória que posto em meu blog qualquer dia.... enquanto isso, manda a da CherryTheNight ( ou sei la como se escreve essa porra, ) trilhos de trem em Itanhaem e outras cositas mais.
    Bons tempos de Uno hein???? manda as histórias do Escort, e me copia no e-mail

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  4. mlopomo@uol.com.br2 de dezembro de 2010 09:28

    Meu primeiro emprego foi em 1º de Julho de 1953, aos 14 anos de idade. Naquele tempo quando saia da escola já para o trabalho. Só não fui dois anos antes por que a lei permitia depois dos 14 anos. Meu pai falou que eu ia ser um fabricante de moveis. E lá fui eu, na Rua Arnaldo, Itaim Bibi trabalhar na firma Moveis Artesanal, onde fiquei por um ano. Só não fiquei mais tempo porque um dia na hora do almoço pulei o muro da casa vizinha a firma para roubar mexerica. A bem da verdade eu e mais 9 amiguinhos da firma.

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