domingo, 22 de novembro de 2009

O apagão

Onde você estava na hora do apagão? Essa foi, provavelmente, a pergunta mais ouvida assim que as luzes foram acesas naquela terça-feira, 10 de novembro. São Paulo ficou sem energia por mais ou menos 6 horas. Tempo suficiente para que, sem acesso ao computador e tevê e sem luz suficiente para ler livros ou folhear revistas, os moradores da cidade apagada pudessem entrar em contato consigo mesmo. Refletir.
Reunir a família para conversar em volta do castiçal e colocar o papo em dia até que a última vela perdesse aos poucos o brilho.
Confesso que não gastei esse tempo todo com profundas reflexões pessoais ou familiares, como insinua o texto.
Gastei meu tempo tentando entender porque algumas pessoas se revelam em momentos de anonimato. No escuro, por exemplo. Machões se requebram, o tímido se insinua para a gostosa, bem educados gritam o mais sujo dos palavrões, o pacífico inicia um quebra-quebra na casa da tia.
Lembram-se daquele apagão de 99? Foi mais ou menos como o deste mês.
Eu fazia faculdade de jornalismo em São Bernardo do Campo. Tinha cerca de 20 anos, como boa parte da classe. Éramos uns 80, mais ou menos. E tinhamos um comportamento correspondente com a nossa faixa etária, de jovens que acabaram de entrar na Universidade.
Mas um de nós era diferente.
Estava na nossa turma um rapaz que tinha quase 30 anos. O curso de jornalismo era o segundo universitário para ele, que já tinha cursado Direito. Trabalhava na área, inclusive, como advogado. Tinha uma postura um pouco mais distante, sem em nenhum momento, no entanto, parecer superior. Era mais maduro mesmo.
Não achava tanta graça nas nossas brincadeiras, não matava aula de Filosofia para jogar futebol de salão. Era um cara tranquilo, gente boa. Estava lá pra estudar. Só.
Na noite daquele apagão de 99 estávamos assistindo uma aula de Sociologia. Quem dava essa matéria era uma professora chamada Sullivan. Uma senhora com seus 60 e poucos anos.
Cabelos curtos, pintados de vermelho, penteados para cima. Batom vermelho também, sempre bem forte. Voz estridente.
A sala cheia. Estava muito quente naquele dia. Eu fazia um esforço tremendo para prestar atenção na aula quando tudo apagou.
Depois de uns 15 segundos de escuridão foi possível perceber que o problema não se resolveria imediatamente. Dava pra ver pela janela que São Bernardo estava apagada.
Na sala de aula um zum, zum, zum. Até que uma voz se sobressaiu.
- Chupa meu p...., Sullivan!
- Pega na minha e balança, Sullivan!
- Pega na minha rol....Sullivan!
Mas aquela voz...... Era o advogado, é claro!
Maduro, experiente, que não cabulava aula para jogar futebol de salão e não achava graça nas nossas piadas! Completamente descontrolado!
Gritando para uma senhora de 60 e poucos anos palavras que deixariam envergonhados atores do mais pesado dos filmes pornô.
Enquanto o advogado respirou para buscar mais alguma frase em seu repertório sexual, a professora dispensou a classe.
Fui embora assustado com a reação do advogado.
Que no dia seguinte, com as luzes acesas, estava lá.
Sentado, de óculos, anotando as orientações deixadas pelos professores na lousa, sem achar graça nas nossas piadas e sem cabular aula para jogar futebol de salão com os colegas.
Desde aquela dia passei a sentar um pouco mais longe dele.
Vai que acaba a luz.