terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tesoura da discórdia

Ser rejeitado não é uma experiência agradável. Em circunstância alguma. Em uma entrevista de emprego, pela garota mais bonita da escola, no time de futebol do bairro. Mas um “não” dói mais que outro “não”.
A relação de um homem com seu barbeiro é algo muito sério.
Transcende a tesoura, o pente, o esguichador de água.
Não é fácil deixar um outro homem acariciar sua cabeça, passar os dedos entre seu cabelo cheio de shampoo, massagear seu couro cabeludo.
É preciso entrega, confiança plena.
Por isso, corto o cabelo no mesmo lugar desde minha mais distante lembrança da infância. Desde que o dono do hoje “grande salão unissex” atendia em um pequeno cômodo em um posto de gasolina.
Acompanhei o crescimento profissional dele.
Vi o nascimento dos filhos dele. Depois, dos netos.
Nossa intimidade chegou a um determinado ponto que certa vez ele me chamou para ver no computador fotos da viagem que fez com a mulher para Natal.
Em todas estava vestido com uma mini sunga que desaparecia escondida por uma enorme barriga. O constrangimento por vê-lo vestido em roupas mínimas em cima de um buggy ou de um camelo nas dunas de Genipabu não foi maior do que o respeito pelo meu companheiro de tantos anos.
Pois bem. Estava no Morumbi um dia desses. Atolado em trabalho. Mas precisava cortar o cabelo. Estava dando voltas atrás da orelha. É horrível.
Sai correndo do trabalho pensando na tesoura correndo sobre minha cabeça pra lá e pra cá. Já me sentia mais leve. Nem pensei em marcar hora. Sou de casa.
Cheguei ao salão pouco tempo antes do fechamento e ainda na entrada me senti feliz em ver aquela figura tão conhecida. Já um senhor, alguns quilos acima do peso, cabeça branca, como que dançando em volta da cadeira onde alguém tinha as madeixas meticulosamente aparadas. Conhece aquele terreno como poucos.
Estendo a mão para um cumprimento e digo a frase de sempre que se tornou uma espécie de código nosso:
-E aí, vamos lá?
Pela primeira vez em trinta anos o notei com o semblante um pouco mais tenso.
E ouvi o que jamais imaginei ouvir um dia.
-Hoje não dá. Estou enrolado.
Foi como se um tijolo caísse nas minhas costas.
Como se ele tivesse cravado aquela velha tesoura no meu coração.
Na calçada, com os olhos ainda lacrimejando, prometi que jamais voltaria.
Meu cabelo dobrou a segunda volta atrás da orelha. Irrita demais.
Acho que vou dar uma nova chance para nossa amizade.
Mas desta vez, serie menos emotivo, mais racional. Vou marcar hora.
Quem sabe com o tempo as coisas não voltam ao normal.

3 comentários:

  1. Todas as relações passam por momentos difíceis, e de aparente substituição. rsrs*
    Tenha calma, o momento certo virá.

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  2. São engraçadas, caso pensemos nelas, essas relações duradouras que construímos pela vida. Passamos a nos sentir "especiais" e, por isso, sentimo-nos realmente magoados quando a "outra parte" parace fraquejar nos sentimentos que julgavamos recíprocos ...

    É irônico, é patético, é meio bobo - mas é sério!

    Senti isso um dia desses com um flanelinha que cuida do meu carro há anos! Não me arrumou uma vaga, vê se pode! Quase me embebedei de tanta mágoa! :)

    Obrigado pela visita ao meu blog. Em se tratando do tema, quando alguém que diz "não gosto de fumaça" (e ninguém é obrigado a gostar!) diz que pensou melhor no assunto ao ler algo que escrevi, é uma vitória.

    Os afetados pela perseguição e pelas leis "totais", que invadem o direito individual e a competência privada, sabem de tudo e concordam comigo desde sempre. Tenho até fãs (o que não resolve meu problema).

    Escrevo muito sobre o tema e sobre outros também. Volte sempre. Abraço.

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  3. Não tem nada na minha vida que eu tenha há tantos anos. Tudo passou por mim e se foi...Isso é ruim? Não, é a vida! Cheia de surpresas e novidades!! Isso te fez pensar? Que bom, que ótimo!! É crescimento.O exercício é o do desapego, que liberta e te torna mais tolerante, principalmente com velhos amigos que as vezes estão de bode e nem por isso deixaram de te amar! beijoca lindo

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