sábado, 31 de outubro de 2009

Casamento

O período de preparação para um casamento é extremamente complicado. É muita coisa pra lembrar, marcar, provar, esquecer, desistir. Docinho, convite, música, etc.
Exige dos noivos fôlego de maratonista, elasticidade de ginasta e paciência de enxadrista. Eventualmente também o jogo de cintura do craque de futebol que dribla o mais temido dos zagueiros. Para escapar das enrascadas que vão surgir na longa trajetória até o altar. Situações que vão causar altas doses de constrangimento e vergonha como a que conto a seguir:
Minha angústia mais profunda era decidir logo onde fazer a festa.
Afinal, queria um espaço bonito, charmoso, barato, acolhedor. Só isso.
Então, digitei no Google "locais para festa de casamento em SP".
Apareceram umas mil respostas. De todos os buffets sugeridos, marquei visita em uns 20.
Mas, só fui mesmo em uns 5 ou 6. Deu uma preguiça imensa.
Entre os buffets que visitei, há um em que espero jamais aparecer novamente.
Foi um caso de antipatia imediata. Sabia que aquele não seria o lugar assim que estacionei o carro na porta. Sei lá. Era só um sentimento que se confirmou assim que a porta abriu.
Fomos recepcionados, eu e minha noiva, por uma rapaz muito educado. Mas muito educado mesmo. Sabem aquelas pessoas chatas, pegajosas, que pensam que estão agradando?
Era um desses. Tudo o que eu não precisava àquela hora da noite, com fome e cansado após um longo dia de trabalho.
Mal chegamos e o mala que guardava uma espécie de enciclopédia debaixo do braço começou a falar como uma máquina:
- Bem vindos a Vila Bizuki. A Vila Bizuki é um espaço que tem 80 anos. O piso é de madeira Batapuã, da Amazônia. Usamos no banheiro lavanda de rosas da França. Nossos funcionários são treinados no Centro de Treinamento da Vila Bizuki, de onde saem deliciosos quitutes.
Sem que pudessemos respirar, ele olha para o teto e dispara.
- Vejam esse lustre. É uma espécie de talismã para nossa família. Era do meu tataravô, Giuseppe Bizuki, que veio da Europa...blá, blá, blá, blá.
Naquele instante, o único desejo que passava pela minha cabeça era ver aquele lustre desabar no chão.
-Vocês terão agora o prazer de conhecer a Vila Bizuki!
Novas portas foram abertas, observo dezenas de casais sentados em uma série de mesas.
Era a chamada noite de degustação, em que todos os interessados em fazer o casamento são convidados para conhecer a casa. Ao mesmo tempo.
Pois bem. Sentamos na nossa mesa. Docemente constrangidos sem saber o que esperar, quando o chato começa a falar sobre comida:
-Nossa cozinha possue o requinte da alta culinária do Mediterrâneo. Terão o prazer de conhecê-la. Depois de visitarem todos os nossos ambientes.
Com fome, passei uns 50 minutos visitando salões, corredores, sacadas.
Vendo diferentes opções de decoração para cadeiras, diferentes formatos de velas.
-Vejam como fica a pista de dança com luz azul! Verde. Amarela. Roxa. Branca. Rosa.
Uma hora mais famintos, voltamos para a mesa.
-Agora vão conhecer as opções de serviço.
Começou a vir a comida. Salgadinhos, pratos quentes, doces.
- Enquanto degustam, vejam imagens de festas já realizadas aqui.
Ficaram na nossa mesa duas pequenas enciclopédias. Com umas 500 fotos cada.
Terminamos a degustação. O vendedor reaparece com um notebook.
Mas antes, diz em tom ameaçador:
-Daqui a pouco vamos testar a pista de dança.
O que será que ele quis dizer? Como será esse teste? pensei comigo.
-Vamos ver mais algumas fotos?
Recomeçou todo o sofrimento. Ele nos mostrou em um notebook dezenas de imagens de noivas saindo, noivas entrando, corredores com luz acesa, luz apagada, com flores jogadas no chão, sem flores jogadas no chão.
Bom, naquele dia conheci até o depósito de lixo da Vila Bizuki. Mas, o pior estava por vir.
-Vamos para a pista! ele gritou um pouco empolgado demais.
Não acreditei no que estava vendo. Fiz duas ameaças de deixar o recinto, mas fui demovido pela minha noiva.
Com as mãos no bolso e um peso imenso nas costas provocado pelo sentimento de derrota que me atingiu subitamente observo que todos os outros casais estão olhando pra mim.
De pé, no centro da pista, ficamos eu, o chato e minha noiva.
Ao nosso redor, uns 10 ou 15 casais com cara de "vergonha alheia".
O DJ começa a tocar um som de discoteca. E eu com as mãos no bolso. Pregado no chão.
Olho para o lado e o chato está dançando com os ombros. Tive vontade de agredi-lo.
Pedi para parar. Disse que já estava bom, mas ele queria mais.
Me fez atravessar toda a pista para encostar a mão na caixa de som e sentir a "vibe". Caixas que também vieram da Europa, segundo o chato que, por misericórdia, me deixou voltar para a mesa. Estava suado. Como se tivesse sido submetido a uma sessão de tortura.
Para encerrar bem a noite, ele faz um orçamento equivalente ao preço de um apartamento.
Mas disse que podia negociar. Claro, um cara tão legal, tão bonzinho.
Prometi avaliar e entrar em contato mais pra frente. Nunca mais apareci.
Mas, como bom chato passou a me ligar insistentemente.
Até um dia em que disse que não haveria mais casamento porque havia sofrido um acidente e o dinheiro reservado para a festa seria utilizado para comprar duas pernas mecânicas.
Nunca mais me ligou.
Chato!

3 comentários:

  1. Oi Rafael!
    Por aí, você já vai fazendo ideia do que é casamento...
    Abraço,
    Márcio - artrockmagazine.blogspot.com

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  2. Rafa, que texto!!!! Quando eu crescer quero escrever como você!!! Já tinha adorado o do barbeiro,mas você se superou!!
    Beijoca

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  3. Ah! Então vc escapou de ter uma festa de casamento bem ... bizuki! Bizukíssima! :) .. Muito bom, como sempre: quase pude "enxergar" essa criatura grudenta e afetada. E vc me deu mais um motivo pra continuar solteiro. Obrigado. De coração. :)


    Mudando de assunto: bacana as reportagens sobre a eleição de 89 (creio que será uma série). Vivenciei MUITO intesamente aquilo tudo, é uma lembrança muito viva para mim.

    Há um conto recente chamado "Comício" em meu blog. É uma história de ficção tendo, como pano de fundo, um episódio daquela campanha muito marcante, em especial para nós, paulistanos. Leia se puder, quando tiver tempo.

    Abração.

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