quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Vamô virá!

Contei essa história rapidamente no Sofá Bandeirantes do último domingo, mas como o tempo é curto no rádio, volto ao tema com mais espaço.
Recuamos para 2006. 31 de março. Aproximadamente duas da tarde de um dia de céu nublado e calor. Estava na sede da prefeitura de São Paulo. Edifício Matarazzo. Aguardava ansiosamente uma definição sobre o meu futuro. Isso mesmo. Afinal de contas, tinha um rotina há dois anos que seria inevitavelmente quebrada naquele dia. A ruptura se daria com a renúncia do então prefeito da cidade. Durante dois anos meu trabalho como repórter foi acompanhar a agenda de José Serra. Com a proximidade do período limite para que os candidatos deixassem os cargos que ocupavam se quisessem disputar a eleição daquele ano a ansiedade cresceu. Serra vai renunciar. Será candidato a Presidência?
A novela se arrastou por meses. Todos sabíamos que teria um final, qual seria o final.
Só não sabiamos quando e onde. Só isso.
Às duas da tarde do dia 31, já com o estômago desgastado pelo constante sentimento de ansiedade, chega a informação de um assessor do prefeito:
-Sigam para o Anhembi. É lá. É já!
Foi a senha para uma correria tremenda. Os jornalistas se atropelavam.
Enquanto tentava pular por cima de algum colega, pensei:
-Porque tão longe? Será que vai dar tempo de chegar? Qual o caminho mais curto e rápido? E se eu perder o anúncio?
Os carros dos jornalistas estavam estacionados no calçadão em frente a sede da prefeitura.
O espaço, no entanto, estava ocupado por uns 4, 5 mil manifestantes.
Eram professores da rede municipal. Tantos que só se via o capô dos carros.
Animados por um caminhão de som, pediam aumento de salário.
Para encontrar a saída em meio a multidão os motoristas decidiram sair em comboio do calçadão. Como o número de veículos era grande, os manifestantes abriram caminho.
Perdi a comitiva enquanto guardava a bolsa no porta-mala.
Tive que atravessar sozinho um mar de professores raivosos.
Que não queriam me deixar passar, embora meus apelos fossem tão dramáticos quanto os de um ator mexicano:
- Por favor gente. Sou trabalhador como vocês!
Compreensão zero. Um deles, que parecia o Tony Garrido, do Cidade Negra, quebrou o retrovisor do lado do passageiro. Os outros gritavam:
-Imprensa vendida! Burguês! Aqui não passa!
Consegui visualizar a rua uns 5 minutos depois.
Quando estava convencido de que sairia vivo dalí, dei de cara com um mini poste de concreto.
O jeito? Dar ré. Mas no meio de todo aquele povo? Sim, isso mesmo.
Irritados com minha manobra eles começaram a bater com bandeiras de plástico no carro e gritar:
- Vamô virá, vamô virá, vamô virá!
A essa altura confesso que já tinha entregado os pontos.
Só pensava em uma forma digna de chegar na rádio e pedir as contas.
Obviamente, depois de o Corpo de Bombeiros desvirar meu carro e me remover de lá.
Eis que uma voz, do alto do caminhão de som dos grevistas pede calma.
Pensei que fosse Deus, tamanho era meu desespero.
Mas não. Era o presidente do Sindicato dos Professores.
Como Moisés abriu o Mar Vermelho para o povo de Israel, um caminho se abriu pra mim no calçadão da prefeitura.
Voando, cheguei ao Anhembi a tempo de acompanhar a renúncia ao vivo.
Amém.

7 comentários:

  1. Passei por uma situação parecida no começo dos anos 90, numa assembléia em frente à Volkswagen, em São Bernardo. Também fiz um discurso parecido e fui "salvo" pelo Vicentinho e um assessor. É, Rafa, às vezes a gente tem que se virar.
    Um abraço
    Haisem Abaki

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  2. É Rafael,é por isso que eu não gosto dessa gente(sindicalistas),apesar do vereador ter pedido por vc,eu não tenho a menor simpatia por essa gente.
    Ainda na minha primeira eleição para governador de sp em 86,onde tinha MALUF,QUÉRCIA,ANTONIO ERMIRIO etc.....fui calmamente para o meu colégio votar,onde numa esquina fui abordado por gente do PT querendo me dar propaganda dos candidato deles,e eu gentilmente me recusei(era apenas um adolecente)e apenas pelo fato de ter recusado pegar a propaganda,quase fui agredido pelos vermelhos.

    VIDA QUE SEGUE,SAI BEM.

    Ass Sergio Cesar

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  3. Confesso que ao longo do texto, torci por você!

    Acesse: http://umapiada.wordpress.com/

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  4. hahahahaha... Que emoção hein Rafael! Mas ainda bem que deu tudo certo!!

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  5. Rafa, seus textos são ótimos, bem escritos, divertidos, emocionantes...
    Parabéns! Seu blog é uma delícia de ler!
    Beijos,
    Dani Zebini.

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  6. vc precisa de deus urgente amém

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  7. seus comentarios na radio são bobos por favor seja mais esperto ñ fale tolices obrigado........ euuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

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