domingo, 6 de setembro de 2009

Supermercado

- Iogurte sa-sabor de amora... só R$ 0,75...não pe-perca....já tem gente le-levando de caixa...vai acabar ra-rapidinho...
Foi a primeira coisa que ouvi no sistema de som do supermercado.
O anúncio do locutor meio gago era um prenúncio do que viria a seguir.
Faz tempo que deixei de freqüentar as lojas das grandes redes.
Prefiro as pequenas vendas perto de casa, mas dia desses precisava comprar algumas coisas que só encontraria lá.
O arrependimento bateu já na chegada. Uma vontade incrível de deitar ali mesmo, na esteira rolante.
-Quanto tempo mais consigo sobreviver com aquele meio copo de requeijão, cebola, alho e água que tenho em casa?
Convencido de que não poderia deixar a preguiça vencer, peguei logo um carrinho.
Meio manco de uma rodinha, mas é com ele mesmo que vou em frente.
O locutor gago é uma espécie de guia turístico. É como aquele cara que toca a flauta e hipnotiza a cobra. A cada promoção anunciada, vê-se uma mini corrida de carrinhos.
Velhinhas se espremendo aqui, respeitáveis senhores se acotovelando acolá.
Bisteca de porco, piscina regan, pen drive, espuma de barbear, pilha palito.
Não importa o produto, se precisa ou não dele.
Vale o prazer imediato de sentir que estamos comprando qualquer coisa por um preço menor do que efetivamente custa.
Para fugir desse risco é que tento fazer compras sempre o mais rápido possível.
Mas nem sempre consigo. Tem muita gente folgada no supermercado.
Largam o carrinho no meio do corredor e ficam olhando para a caixa de Sucrilhos como se fosse um diamante.Tira o óculos, olha a lista, põe o óculos, olha o Tony, pega o Sucrilhos, balança, larga o Sucrilhos.
Vencida a sedução das promoções e o congestionamento chega o momento mais delicado dessa odisséia.
A escolha do caixa em que se vai pagar as compras é sempre difícil. As filas são longas.
Então, é preciso usar a sensibilidade, o sexto - sentido, ouvir o que o coração tem a dizer.
Fazer uma relação entre a cara do sujeito, a quantidade de objetos no carrinho, a provável habilidade para empacotá-los rapidamente. É um desafio.
Na minha primeira opção, uma rapaz oriental,com cabelo tingido de loiro e rabo de cavalo, usava uma papete nos pés e pochete na cintura. O único produto que ia levar era um coleira de cachorro. Devia ser um cãozinho pequeno. Poodle, chihuahua.
Apesar disso, senti que não era uma boa. Meu coração era quem estava falando.
Optei por uma fila ao lado.
Na minha frente uma mãe com o filho, já com seus 25 anos, camisa da seleção e boné virado pra trás.Foram rápidos, como modéstia a parte, já havia previsto.
Nesse curto espaço de tempo, porém, pude notar como os supermercados tentam disfarçar a pequena oferta de funcionários para os caixas. Todas as filas têm uma tevê. Na minha passava um programa sobre Amsterdam. Palavra da apresentadora:
- Você precisa conhecer Amsterdam. Politicamente avançada, culturalmente agitada e multiétnica. Fui acordado da minha viagem para a Holanda pela cliente atrás de mim que falava ao celular e levava entre muita bebida, dois sacos de carvão:
-Ninguém chegou pro churras? Marquei pras três horas, meu!
Minha hora de pagar. No caixa do lado direito, a demora do japonês causava uma fila enorme.
Ele já tinha sacado uns 8 cartões da pochete e nenhum dava certo. Minha intuição não falhou, modéstia a parte, mais uma vez.
No do lado esquerdo, um daqueles empacotadores idosos contratados pelo supermercado.
Cabelos brancos, mãos trêmulas, mas um olhar desafiador. Como se desprezasse a capacidade de um jovem inexperiente como eu.
-Ah, velhinho. Vai ver o que é bom pra tosse. Pra sua tosse!
Começou o duelo e meus dedos deslizavam como nunca entre os saquinhos de plástico.
Embora tentasse me acompanhar, o senhor viu que a competição era desigual.
Estava inspirado. Queria me superar e mostrar como se guarda compras com rapidez.
Com a mesma agilidade, digitei a senha do cartão e fui embora cantando rodinhas do meu carrinho manco.
Sacolas no porta-malas, agora só ir embora. Não volto tão cedo.
Mas a cancela que guarda o estacionamento não abre. Um funcionário aparece minutos depois.
- O senhor validou o tíquete?
-Nunca precisei fazer isso!
- Pois é, mas desde o mês passado adotamos esse procedimento pra evitar a utilização irregular do nosso estacionamento.
- Mas gastei uma grana em compras aqui!Está tudo aí atrás!
-Desculpe senhor. Sem a validação do tíquete no balcão ao lado do McDonald´s a cancela não abre.
Ouço uma buzina.
No carro de trás está o japonês, com cabelo tingido de loiro e rabo de cavalo, que usava uma papete nos pés e pochete na cintura. Está impaciente com minha demora. Fazer o quê?
Enquanto estou esperando o carimbo no papel vejo de novo aquele olhar desafiador que pensei ter deixado para trás.
Com um sutil sorriso no rosto, ele guardava com as mãos trêmulas a gorjeta que acabara de ganhar.
Haverá revanche e verá o que é bom pra tosse. Pra sua tosse!

5 comentários:

  1. Quando li a parte de escolha da fila, confesso que fiquei com inveja, pois sempre pego a fila errada....

    Visite: http://umapiada.wordpress.com/

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  2. A exemplo do colega acima, também SEMPRE pego a fila que não anda, seja no supermercado, seja no trânsito, em qualquer lugar. Vc precisa me ensinar sua técnica (se é que existe algo técnico nisso).

    Ótima crônica, mesmo! :)
    Texto fluente, engraçado, faz com que o leitor visualize as situações. Algumas tornam-se divertidas num texto, porque são tão rotineiras que não lhe notamos a graça: como as Tvs próximas aos caixas, por exemplo.


    **

    Trocamos e-mails um dia desses. Eu escrevi MUITOS e-mails emputecidos para a Bandeirantes por causa da abordagem dada à Lei Anti-Fumo, vc foi o único a me dar alguma atenção.

    Leia-me também quando puder:
    www.ocolecionadordehistorias.com.br

    Abraço!

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  3. hahaha... mto bom! mas é impressionante cm anda o nível de stress das pessoas. Hj em dia, c/ a explosão dos blogs na internet, onde mtas crônicas cm a sua são postadas, vemos cm estamos impacientes. Parece q tudo tem se tornado um fardo, desde o simples ato de fazer compras no mercado até tirar dinheiro num caixa eletrônico (li "Criptonita" antes dessa crônica!...

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  4. ... O mundo se tornou tão imediato q mesmo qdo ñ temos pressa, estamos c/ pressa! Precisamos, urgentemente, aprender a lidar c/ as situações, principalmente deste tipo, de maneira mais leve, antes q nos tornemos caso de saúde pública!

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  5. Rafael,
    Vc deveria escrever um livro. Se sairia muito bem nisso. Adorei mesmo seu blog.

    Isabel Santos

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