terça-feira, 25 de agosto de 2009

A massagem

As dores nas costas têm aumentando nos últimos dias.
Dói pra agachar, carregar peso, ficar sentado muito tempo e por aí vai.
Sempre que me queixo ouço a mesma recomendação da minha noiva:
- Vai fazer uma massagem, melhora na hora. Conheço um lugar ótimo!-
Conselho atendido, horário marcado para o sábado, 11:15.
Confesso que na sexta já fui dormir arrependido pensando no trabalho de acordar cedo, no frio que estava fazendo, etc. No fundo queria uma desculpa pra escapar.
No sábado de manhã ameaçei desmarcar o horário duas vezes,mas resolvi pagar pra ver, literalmente. A massagem foi feita em um clube como Pinheiros, Paineiras, por exemplo.
Na recepção, tivemos que justificar nossa entrada.
Minha noiva anunciou com extrema frieza:
-Viemos para a massagem.
- Não fala alto assim! Tem gente olhando!
Senti um olhar de censura do segurança que retrucou:
- Os dois?
Sem que ela visse fiz por trás um sinal para o segurança, apontando para minha noiva como se dissesse por telepatia ao porteiro:
- Que é isso, rapaz! Massagem? Eu, não. Só ela. Vim jogar bola. Sou zagueiro.Média de 32 faltas cometidas por jogo!Um animal!
Sem parte do meu orgulho que ficou na catraca com o segurança fui para uma sala onde me deram uma toalha. Quando virei as costas a moça me perguntou:
- Não vai querer seu amendoim?
Amendoim? Pra quê? Vão me embarcar em vôo da Gol? Posso escolher a barrinha?
- O amendoim não vai deixar sua pressão baixar caso queira fazer sauna depois.
Com minha toalha e meu pacote de amendoim me despedi da minha mulher e fui para uma outra sala, onde tinha uma maca.
Minutos depois chegou a massagista.
Uma pequena e simpática japonesa que se apresentou e me disse:
- Meu nome é Uehara. Vou pegar as coisas e volto já. Pode se preparar. Fique à vontade.
O que ela quis dizer com fique à vontade? Tiro a roupa? E se não for isso? Imagine o susto dela ao me encontrar pelado na maca? Vai chamar o segurança!
Por via das dúvidas permaneci vestido fingindo que estava ocupado demais mexendo no celular.
A massagista, srta. Uehara, voltou e me orientou:
- De cueca, por favor.
A massagem começou pelo braço, altura do cotovelo.
Srta. Uehara apertou um ponto que deve conter toda a tensão do meu corpo.
Se já não estivesse deitado, ajoelharia. Os olhos lacrimejaram. Parecia uma cena daqueles filmes de luta em que o mocinho pressiona com um dedo o ombro do bandido que cai imediatamente.
Quinze minutos depois já estava besuntado por um óleo com cheiro de eucalipto.
Quando Srta. Uehara chegou nas costas eu estava quase dormindo, mas fui acordado quando ela disse:
- Nossa! Está muito tenso. Espere um pouco.
Onde ela foi? Chamar o Sr. Uehara. Uma junta médica? Vão me fotografar para estudos universitários?
Ela voltou com um equipamento que suga o músculo,como um desentupidor. E avisou:
- Vai ficar vermelho por uns dias.
Pensei comigo:
- Que bom. Agora vou parecer uma bala Soft de menta ambulante com manchas vermelhas nas costas. Tudo bem!
Procedimento encerrado. Luzes acesas. Rápida despedida, ainda de cueca.
Na saída, talvez relaxado um pouco demais,esqueci a toalha e meu amendoim.
Não deu pra tomar banho. Fui embora com um forte cheiro de eucalipto.
O suficiente para atrair alguns coalas famintos quando parava no semáforo.
Era tanto óleo que os pés escorregavam dentro do tênis.
Muito stress para um sábado de manhã.
Acho que preciso de uma massagem.
- Alô, srta. Uehara?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Malandragem

Três jovens foram flagrados por seguranças pichando muros de uma empresa na Mooca no fim de semana passado.
Tomaram uma bela “coça”. Aliás, com uma boa dose de excesso.
Ao invés de acionar a polícia, os seguranças perseguiram os adolescentes com um cachorro que mordeu um deles, atiraram para o alto apenas para “assustar” e, antes de obrigar o bando a fugir correndo pela linha de trem, apreenderam o spray e picharam o corpo dos rapazes.
Pichação é algo que deixa qualquer cidade mais feia, com aspecto de abandono.
Contribui para a degradação urbana.
Afinal, o vândalo se sente mais estimulado a destruir algo que já está mal cuidado.
Foi com essa teoria debaixo do braço que o histórico prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, recuperou a cidade. É preciso deixar de tolerar a pequena contravenção, como a pichação por exemplo, para inibir crimes tidos como mais importantes.
O caso da Mooca deixa claro, no entanto, um exagero de gente mal preparada que se sente acima da lei e acha que deve fazer justiça com as próprias mãos.
Que com uma arma e um rádio passa a se sentir policial e juiz ao mesmo tempo.
Mas esse episódio me fez lembrar que todos estamos sujeitos a errar.
Com uns 12 anos tinha um amigo que era um mau elemento.
Eu nunca fui, mas durante um período, achei que podia ser.
Compramos um canetão e combinamos de pichar uns muros no bairro.
Saímos juntos, mas nos separamos na rua para não levantar suspeita.
Nos encontramos meia hora depois para um balanço da contravenção.
Meu companheiro indicou umas dez paredes no bairro que tinham a assinatura dele: BEX.
Não sei de onde tirou esse apelido, mas achei o máximo.
Eu só tinha uma. O muro do meu próprio prédio. E adivinhem o que escrevi?
Meu próprio nome! Um gênio da contravenção! O Ronald Biggs da pichação!
Tomei uma dura do cara. Ficou evidente, se é que ainda tinham alguma dúvida, que eu não era o malandrão que julgava ser.
Tive que reiniciar a pichação para dar um jeito de disfarçar meu próprio nome e apagar vestígios da auto incriminação.
Ficava circulando pela calçada da minha casa tentanto bolar algo. Como fui tão ingênuo?
Olhava para o alto para ver se minha mãe não estava na janela, para o lado para ver a cara de desprezo do meu amigo pichador e me agachava para fugir do porteiro e camuflar meu erro.
De RAFA mudei a inscrição para BARATA.
O “T” era na realidade um “F” disfarçado que não consigo reproduzir aqui.
Depois disso aposentei o canetão.
E hoje me considero um sujeito de sorte por não ter encontrado um segurança louco pela frente.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Uns diferentes dos outros

Uma banana.
Foi o que vereadores paulistanos deram para a Lei Cidade Limpa. Pior.
Para todos os bobos que gastaram dinheiro para reduzir anúncios, correram para adaptar fachadas, arrancar banner.
A Câmara Municipal aprovou ontem um projeto que libera a propaganda política em São Paulo durante o período eleitoral.
Ou seja, eles poderão pregar faixas, pintar muros, colar cartazes.
Tudo o que você não pode.
Nada mais primitivo e oportunista.
Os vereadores de São Paulo mostram que aprenderam bem a cartilha rezada em Brasília resumida com perfeição em uma frase dita por Lula quando surgiram as primeiras denúncias contra José Sarney:
- Sarney não pode ser tratado como um pessoa comum – bradou o presidente.
Os vereadores paulistanos também. São melhores que nós. Podem mais que nós.
Mostraram isso ontem.
A Lei Cidade Limpa foi um avanço em São Paulo, mesmo em nome dela tendo ocorrido excessos. O prefeito Kassab, mentor do aplaudido projeto, se rendeu aos apelos dos vereadores e defendeu a iniciativa deles em ignorar a cidade.
Disse que uma lei municipal não pode sobrepor uma lei federal que disciplina a propaganda política.
Mesmo que seja assim na frieza das leis, os vereadores perderam mais uma grande chance.
De dar um exemplo de respeito pela cidade e abrir mão de emporcalhar São Paulo.
Resta agora ao cidadão que gastou dinheiro para reduzir anúncios, correu para adaptar fachadas e arrancar o banner guardar bem a carinha dos candidatos.
Não se preocupe. Elas estarão espalhadas por aí.
Dê o troco.
Eles não respeitam você. Eles não respeitam São Paulo. E não merecem seu voto.

domingo, 16 de agosto de 2009

Oi?

O teste de audiometria serve para verificar a qualidade da audição de um indivíduo. O cidadão fica em uma cabine fechada com um fone no ouvido. Do outro lado, observando o paciente por um vidro, o médico.
Dia desses tive uma gripe forte. Nariz congestionado, tosse, essas coisas.
Como em tempo de gripe suína não dá pra saber se focinho de porco é tomada procurei um médico que suspeitou que estivesse entre outras coisas com secreção no ouvido esquerdo. Fui ao teste. Já tinha feito outras vezes. Foi quando constatei uma leve perda de audição justamente no ouvido que seria examinado. A deficiência é leve, mas suficiente para que eu sempre responda com um “hã?” ou “hein?” quando alguém fala comigo pelo lado esquerdo.
De volta para a audiometria me acomodei na cabine com isolamento acústico total. Na minha frente, a médica. Me deu um aparelhinho para segurar com um botão na ponta. Cada vez que ouvisse um sinal, deveria apertá-lo.
Enquanto o teste não começava pensei no seguinte:
Imagine se estiver mesmo com esse negócio. O que vão fazer? Lavagem no ouvido? Vai doer muito. Terei que tomar remédio por quanto tempo? Vai dar um trabalho danado.
A cabeça viajando e nada do exame começar. Ou será que ela já está emitindo os sinais e não estou escutando? Minha surdez piorou? Assim que sair daqui vão enfiar uma mangueira na minha orelha com uma jato de água tão forte que vai sair pelo outro lado, como em desenho animado?
Bom, vamos ao teste. Os sons começam em um tom alto. Sem problemas. Sucesso total.
Com o tempo fui percebendo que a médica emitia os avisos sempre com o mesmo intervalo de tempo. Um, dois, três, pi – quatro, cinco, seis, pi. O volume foi diminuindo aos poucos.
Mesmo sem ouvir absolutamente nada apertava o meu botão imaginando que ela faria a parte dela também. Um, dois, três, pi - quatro, cinco, seis, pi.
É isso mesmo.
Resolvi colar, fraudar a audiometria para evitar lavagem, remédio, essas coisas.
Não deu certo.
O exame constatou a suspeita do médico.
Nada que um bom antibiótico não resolvesse.
Fraudar um exame médico é uma das atitudes mais estúpidas que alguém pode tomar.
Mas quem gosta de remédio, lavagem no ouvido?
Hein? Hã?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Vizinho

Uma construtora está vendendo apartamentos em um prédio no Brooklin idealizado para estimular a confraternização dos vizinhos.
A matéria foi publicada na “Veja São Paulo” faz uns 15 dias.
Entre outros “facilitadores para convivência” há logo na portaria um mapa com a caricatura de cada morador e a descrição das características pessoais mais marcantes de cada um deles.
Sociável, introvertido, corintiano, gosta de tomar sol na piscina, usa pé de pato, ouve música clássica, tem mau hálito, etc.
Além disso, cada apartamento dispõe de um equipamento luminoso semelhante a um semáforo. De casa é possível acionar um painel que fica no térreo com luzes verde, amarela e vermelha. As cores variam de acordo com o estado de humor e a vontade de interagir com a comunidade local.
Verde, tudo bem. Venham até minha casa.
Vermelho, não passe aqui nem de elevador.
É um conceito interessante, especialmente para pessoas mais velhas que moram sozinhas. Mas, é impossível não imaginar como deve ser chato.
Certamente há um morador que vive feliz, de bom humor. Luz sempre verdinha.
É ele quem vai querer bater papo no elevador às 6h30 da manhã enquanto você só pensa em dormir mais 5 minutinhos dentro do carro na garagem.
É ele quem se oferece em plena terça-feira para organizar um churrasco no sábado durante o jogo do São Paulo(credo!) enquanto você só pensa em chegar em casa e comer o resto de arroz com feijão que sobrou do almoço.
Vizinho, salvo raríssimas exceções, causa problema.
Tinha uma no meu prédio que passava o dia na janela esperando uma criança pisar na grama. Se pisasse, ligava pra mãe descabelando.
Outra, da casa ao lado, furava as bolas que caiam no quintal.
Vinte anos depois ainda deixo meu cachorro fazer xixi no portão dela.
Me sinto vingado quando a vejo lavando a calçada. Quem mandou ser ruim?
No prédio onde moro atualmente tiveram que pregar um aviso no elevador pedindo que parassem de jogar preservativos pela janela!Consta em ata de reunião.
Como seria a caricatura desse rapaz que dispensa a camisinha assim?
Proibida para menores de 18 anos, certamente.
Vizinho é isso. Vizinho é assim.
E a sua luzinha? Está verde, amarela ou vermelha?