domingo, 19 de julho de 2009

Fazemos qualquer negócio

Os moradores e turistas que visitaram Nova York tiveram uma belíssima surpresa em pleno horário de almoço na segunda-feira passada. Milhares de pessoas foram surpreendidas por um show relâmpago de Paul McCartney na marquise do Teatro Ed Sullivan, palco da primeira apresentação dos Beatles na tevê americana, em 1964. 45 anos depois, o show, no mesmo lugar, foi exibido no programa de entrevistas de David Letterman, um dos mais populares do país.
Impossível mensurar a sensação de quem passava por lá ao ser abalroado pela voz mágica do ex-Beatle. Imagine-se caminhando na rua com aquele colega chato do trabalho na volta do almoço, calor, terno suado, barriga cheia, sono, pronto para mais uma tarde entediante no escritório, louco para ver o relógio chegar às 17hs e, surpresa!
Inevitável pensar como seria algo assim aqui em São Paulo, no nosso cotidiano. Com que artista? Em que marquise? Pensando em diversas possibilidades me lembrei de um encontro inusitado que assisti dia desses. Um frio danado em São Paulo, parei na padaria perto de casa para um café depois do trabalho. Sentado no balcão, notei em uma mesa dois rostos conhecidos, mas nem tanto.
São aquelas pessoas que você sabe que já viu, mas não se lembra se são os balconistas da farmácia, um antigo professor de inglês ou o vizinho que não queria devolver a bola que caiu no quintal. Um pouco de esforço e me lembrei do primeiro. Era o cara que fazia o Samuel Blaustein, da "Escolinha do Professor Raimundo".
Que usava o bordão: - Fazemos qualquer negócio.
O ator se chama Marcos Plonka, é um comediante com carreira de sucesso, embora esteja afastado da tevê de uns tempos pra cá.
O outro me deu um pouco mais de trabalho. Sabia que era cantor de samba. Agepê? Não, já morreu. Paulinho da Viola?Martinho da Vila? Tobias da Vai-Vai? Não, não, não.Recorri ao chapeiro da padaria que me disse: -É o Luiz Ayrão, rapaz!
Fui ao Google e descobri que ele é um tradicional músico carioca, ligado a Portela, e já teve até uma música gravada por Roberto Carlos chamada "Ciúmes de Você", popularizada anos depois pelo grupo Raça Negra. Já vendeu milhares de discos embora também esteja afastado da mídia faz algum tempo.
Confesso que fiquei absolutamente curioso naquele dia. Liguei para amigos e família para contar o encontro inusitado que estava vendo. Fiquei pensando em como eles ficaram amigos? Certamente nos bastidores de shows, apresentações em tevê. Do que eles estão falando? Será que estão recordando os tempos em que eram grandes estrelas, famosos, apareciam na Globo, davam autógrafos? Agora estão aqui, sentados em uma padaria comum, frequentada exclusivamente por anônimos, perto da minha casa, tomando sopa, sem provavelmente terem sido reconhecidos por ninguém! Muito cruel. Vou propor ao dono da padaria que anime a hora do almoço no bairro com um show na marquise: Luiz Ayrão e Marcos Plonka. Samba e piadas.
Quem sabe um dia Paul McCartney não passa perto de casa e pede uma sopa de mandioquinha.
Dizem que virá ao Brasil em 2010.
Até lá, fazemos qualquer negócio.