domingo, 28 de junho de 2009

O ar puro dos inocentes

Sábado acabei com um sofrimento que durava alguns meses. Levei meu carro para a inspeção veicular. É uma verificação obrigatória imposta pela prefeitura para determinar a quantidade de poluentes que o veículo libera na atmosfera. Pode até ser importante para salvar o meio ambiente, diminuir o aquecimento global, aumentar o tempo de vida dos ursos polares, mas daí a ter que acordar cedo no sábado dá uma preguiça danada.
Toparia passar um tempo respirando um escapamento de caminhão do que deixar a cama quentinha naquela hora.
Mas, como é obrigatório, desta vez marquei e fui.
Afinal, era o fim do prazo para automóveis com placa final 3.
Paguei a taxa de R$ 54,00 e cheguei no horário marcado ao posto na Via Anchieta.
No caminho até lá adquiri uma certeza: eu seria reprovado.
Iria pagar por nunca ter sido um bom companheiro para meu carro. Chegou a hora da verdade!
Água no radiador, troca de óleo do motor, revisão dos 10 mil quilômetros. Nada.
Além disso, tenho o hábito de tentar ver até onde o coitado anda sem combustível.
Meu recorde foram 3 dias com o tanque na reserva. Não é à toa que o chamo de camelo.
Não passava perto de um lava-rápido fazia uns dois meses.
Havia tanto jornal jogado lá dentro que em um deles deve ter foto do Zacarias com cabelo, matéria sobre a primeira aula de musculação do Stallone, etc.
No capô, ainda estava viva a lembrança de um passarinho que deve ter comido uma feijoada antes de escolher o local onde testou o funcionamento do aparelho digestivo.
Mas, enfim, cheguei ao posto de atendimento na hora marcada.
Um funcionário com uma máscara no rosto me pediu que saísse do carro e andasse pela linha amarela até umas cadeiras onde o pessoal espera o fim da inspeção.
Já me senti sendo avaliado a partir daquele momento.
Tentei não pisar fora do caminho determinado, embora o sono ainda me deixasse zonzo.
Me sentei e permaneci em silêncio. Para que nada fosse usado contra mim.
No box número 4 estávamos eu e uma mulher com um Peugeot.
Começou o exame. Ligaram uns fios do meu carro para um computador.
Nessa hora pensei: - Me pegaram! Rodei!Acabou pra mim!
Olharam a parte debaixo do veículo com um espelho, como se estivessem em busca de armas, drogas, contrabando. Estava esperando que trouxessem um cachorro pra cheirar minhas calças.
O "avaliador" então olhou para a tela. Tentei interpretar o que o rosto dele queria dizer.
Será que passei? Repeti? Ele só demonstrava frieza. Nenhum músculo da face se movia.
Um outro funcionário se aproximou e perguntou:
- O Peugeot é seu? Respondi que não. Ele então foi até a mulher que estava comingo no box 4.
Enquanto procurava os óculos para enxergar bem a reação dela ao resultado do teste os dois sumiram. Será que ela foi reprovada? Raptada pela Controlar, empresa que faz a inspeção?
Será agora entregue ao prefeito e exibida para a cidade em evento público como culpada pelo aumento da concentração de enxofre no ar paulistano? Terá qua andar pra sempre com um rabinho de gambá pregado na saia como punição? Boa sorte pra ela.
Minutos depois me chamaram. O rapaz me entregou um pequeno documento e disse:
- Está tudo certo! Está vendo esse selo verde? Vou pregar no vidro. É bom não tirar.
Estava tão feliz que deixaria ele tatuar o selo no meu braço!
Foi como se tivesse sido livrado de acusação por crime ambiental.
Ao invés da cadeia, iria para a padaria tomar café da manhã em liberdade.
E respirar o ar puro que só os inocentes podem sentir.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Abelhudo

São Paulo possui centenas de salas de cinema. É a maior oferta do país.
Mesmo assim, faltou lugar durante o fim de semana prolongado.
Em uma das duas tentativas de assistir a um filme qualquer para atenuar as dores do plantão do feriado me lembrei de um caso “abelhudo”.
Faz mais ou menos um ano fui assistir a estréia de Bee Movie em um shopping da cidade.
O filme é uma animação criada por Jerry Seinfeld que conta a vida de uma abelha que se comporta como gente e estimula uma greve nas colméias americanas ao descobrir que os humanos roubam e vendem o mel que produzem com muito suor e trabalho. Apesar de parecer, não é um filme exclusivamente para crianças.
Escolhi a sessão legendada de um sábado à tarde. Estava sozinho. Consegui minha poltrona predileta – a primeira da fila para esticar as pernas no corredor e/ou conseguir escapar mais rápido em caso de incêndio ( quem não tem paranóia?).
Minutos depois chega um outro rapaz com um saquinho de doces comprados nas Lojas Americanas, um refrigerante e pipoca. Senta-se na mesma fileira que eu, umas três cadeiras pra lá. O destino dele, o meu e o de uma família que também acabara de chegar iriam se cruzar minutos depois. Começa o filme. Expectativa. Foram dez anos de espera até uma novidade produzida por Seinfeld. De bate-pronto uma das crianças da família que citei acima começa a chorar. Tinha uns 3 ou 4 anos. Depois, pula do colo da mãe para o do pai como se tivesse um ferrão espetado no bumbum.
Próximo passo: o garotinho conversa com a irmã, um pouco mais velha.
Nada que atrapalhasse demais. É claro que se fossemos levar as coisas ao pé da letra a família deveria ter assistido a sessão dublada. Mas, bola pra frente.
A criança botou novamente a garganta para trabalhar, o choro se intensificou e a mãe, constrangida, decidiu sair da sessão para alívio geral da platéia.
Quando ela levantou, o rapaz do saquinho de doces gritou:
- Até que enfim! Se toca! Some daqui! Vai pra sessão dublada!
A mãe se descontrolou. Largou a criança no chão e quis partir pra cima do rapaz dos doces.
Mas antes teria que passar......por mim.
Quem mandou sentar na poltrona predileta - a primeira da fila para esticar as pernas no corredor e/ou conseguir escapar mais rápido em caso de incêndio? (quem não tem paranóia?)
Ela gritava todos os palavrões possíveis descontroladamente:
-Não mexe com filho meu, fdp.....vead......safad.....!
Fui obrigado a me levantar e tentar acalmá-la. Mostrei que a criança chorava ainda mais e a convenci a levá-la para tomar água. Por um minuto fui a atração principal da sessão desenvolvendo minha habilidade como mediador de conflitos.
Que não funcionou tão bem assim.
Ao fim do filme o pai da criança, até então sumido, surpreendeu o rapaz dos doces e deu-lhe um belo pescotapa. Com a mão na nuca empurrou a cabeça do "chato" para baixo e fez com que andasse uns bons metros cheirando o chão. Ainda derrubaram uma meia dúzia de cadeiras da praça de alimentação até que os seguranças chegassem.
E depois de onze anos de espera felicito o lançamento de Bee Movie em DVD.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Juntos chegaremos lá

São Paulo atingiu um novo recorde de congestionamento na quarta-feira.
293 quilômetros de congestionamento às 7 da noite.
Chuva, acidentes, véspera de feriado.
A imagem de ruas e avenidas nas emissoras de tevê era desalentadora.
De um lado da tela as luzes brancas dos faróis.
Do outro a luz vermelha que indicava: todo mundo com o pé no freio. Para piorar, um frio de rachar.
Agora é esperar por uma nova marca: 300 quilômetros!
Juntos chegaremos lá! Ou juntos pararemos lá!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Ar puro

A prefeitura de São Paulo está autorizada pelo vereadores a reduzir gradativamente a circulação de carros no centro da cidade.
Está é uma das medidas previstas e aprovadas em um plano para redução dos índices de poluição na capital.
Não há menção no texto sobre a criação de pedágio urbano.
De qualquer forma é possível que dentro de algum tempo seja adotado um rodízio mais rigoroso na região.
O centro da cidade é relativamente bem servido de transporte público.
Há estações do Metrô - mais uma linha está sendo construída - ônibus, muitos táxis, que ainda cobram uma tarifa muito alta.
Os paulistanos serão colocados então diante de uma escolha difícil: optar pelo transporte público em nome de menos congestionamento, ar mais puro, menos ocorrências de doenças respiratórias ou dormir dez minutos a mais e optar pela comodidade do automóvel?
A tendência em todo o mundo é a priorização do transporte público.
Em Nova Iorque, o prefeito Michael Bloomberg vai transformar diversas ruas e avenidas de Manhattan em calçadões. Assim é em Londres, Tóquio.
Cidades que possuem um número de quilômetros de metrô infinitamente superior ao daqui.
O Metrô paulistano está superlotado, com mais passageiros por metro quadrado nos horários de pico do que qualquer outro.
Quem usa sabe do empurra-empurra que é para entrar no vagão.
Achar um assento então, só de dormir lá dentro para já acordar sentado.
Antes de restringir é preciso dar alternativa de qualidade e convencer quem usa o carro particular que vale a pena acordar dez minutos mais cedo e optar pelo transporte público.