sábado, 31 de outubro de 2009

Casamento

O período de preparação para um casamento é extremamente complicado. É muita coisa pra lembrar, marcar, provar, esquecer, desistir. Docinho, convite, música, etc.
Exige dos noivos fôlego de maratonista, elasticidade de ginasta e paciência de enxadrista. Eventualmente também o jogo de cintura do craque de futebol que dribla o mais temido dos zagueiros. Para escapar das enrascadas que vão surgir na longa trajetória até o altar. Situações que vão causar altas doses de constrangimento e vergonha como a que conto a seguir:
Minha angústia mais profunda era decidir logo onde fazer a festa.
Afinal, queria um espaço bonito, charmoso, barato, acolhedor. Só isso.
Então, digitei no Google "locais para festa de casamento em SP".
Apareceram umas mil respostas. De todos os buffets sugeridos, marquei visita em uns 20.
Mas, só fui mesmo em uns 5 ou 6. Deu uma preguiça imensa.
Entre os buffets que visitei, há um em que espero jamais aparecer novamente.
Foi um caso de antipatia imediata. Sabia que aquele não seria o lugar assim que estacionei o carro na porta. Sei lá. Era só um sentimento que se confirmou assim que a porta abriu.
Fomos recepcionados, eu e minha noiva, por uma rapaz muito educado. Mas muito educado mesmo. Sabem aquelas pessoas chatas, pegajosas, que pensam que estão agradando?
Era um desses. Tudo o que eu não precisava àquela hora da noite, com fome e cansado após um longo dia de trabalho.
Mal chegamos e o mala que guardava uma espécie de enciclopédia debaixo do braço começou a falar como uma máquina:
- Bem vindos a Vila Bizuki. A Vila Bizuki é um espaço que tem 80 anos. O piso é de madeira Batapuã, da Amazônia. Usamos no banheiro lavanda de rosas da França. Nossos funcionários são treinados no Centro de Treinamento da Vila Bizuki, de onde saem deliciosos quitutes.
Sem que pudessemos respirar, ele olha para o teto e dispara.
- Vejam esse lustre. É uma espécie de talismã para nossa família. Era do meu tataravô, Giuseppe Bizuki, que veio da Europa...blá, blá, blá, blá.
Naquele instante, o único desejo que passava pela minha cabeça era ver aquele lustre desabar no chão.
-Vocês terão agora o prazer de conhecer a Vila Bizuki!
Novas portas foram abertas, observo dezenas de casais sentados em uma série de mesas.
Era a chamada noite de degustação, em que todos os interessados em fazer o casamento são convidados para conhecer a casa. Ao mesmo tempo.
Pois bem. Sentamos na nossa mesa. Docemente constrangidos sem saber o que esperar, quando o chato começa a falar sobre comida:
-Nossa cozinha possue o requinte da alta culinária do Mediterrâneo. Terão o prazer de conhecê-la. Depois de visitarem todos os nossos ambientes.
Com fome, passei uns 50 minutos visitando salões, corredores, sacadas.
Vendo diferentes opções de decoração para cadeiras, diferentes formatos de velas.
-Vejam como fica a pista de dança com luz azul! Verde. Amarela. Roxa. Branca. Rosa.
Uma hora mais famintos, voltamos para a mesa.
-Agora vão conhecer as opções de serviço.
Começou a vir a comida. Salgadinhos, pratos quentes, doces.
- Enquanto degustam, vejam imagens de festas já realizadas aqui.
Ficaram na nossa mesa duas pequenas enciclopédias. Com umas 500 fotos cada.
Terminamos a degustação. O vendedor reaparece com um notebook.
Mas antes, diz em tom ameaçador:
-Daqui a pouco vamos testar a pista de dança.
O que será que ele quis dizer? Como será esse teste? pensei comigo.
-Vamos ver mais algumas fotos?
Recomeçou todo o sofrimento. Ele nos mostrou em um notebook dezenas de imagens de noivas saindo, noivas entrando, corredores com luz acesa, luz apagada, com flores jogadas no chão, sem flores jogadas no chão.
Bom, naquele dia conheci até o depósito de lixo da Vila Bizuki. Mas, o pior estava por vir.
-Vamos para a pista! ele gritou um pouco empolgado demais.
Não acreditei no que estava vendo. Fiz duas ameaças de deixar o recinto, mas fui demovido pela minha noiva.
Com as mãos no bolso e um peso imenso nas costas provocado pelo sentimento de derrota que me atingiu subitamente observo que todos os outros casais estão olhando pra mim.
De pé, no centro da pista, ficamos eu, o chato e minha noiva.
Ao nosso redor, uns 10 ou 15 casais com cara de "vergonha alheia".
O DJ começa a tocar um som de discoteca. E eu com as mãos no bolso. Pregado no chão.
Olho para o lado e o chato está dançando com os ombros. Tive vontade de agredi-lo.
Pedi para parar. Disse que já estava bom, mas ele queria mais.
Me fez atravessar toda a pista para encostar a mão na caixa de som e sentir a "vibe". Caixas que também vieram da Europa, segundo o chato que, por misericórdia, me deixou voltar para a mesa. Estava suado. Como se tivesse sido submetido a uma sessão de tortura.
Para encerrar bem a noite, ele faz um orçamento equivalente ao preço de um apartamento.
Mas disse que podia negociar. Claro, um cara tão legal, tão bonzinho.
Prometi avaliar e entrar em contato mais pra frente. Nunca mais apareci.
Mas, como bom chato passou a me ligar insistentemente.
Até um dia em que disse que não haveria mais casamento porque havia sofrido um acidente e o dinheiro reservado para a festa seria utilizado para comprar duas pernas mecânicas.
Nunca mais me ligou.
Chato!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tesoura da discórdia

Ser rejeitado não é uma experiência agradável. Em circunstância alguma. Em uma entrevista de emprego, pela garota mais bonita da escola, no time de futebol do bairro. Mas um “não” dói mais que outro “não”.
A relação de um homem com seu barbeiro é algo muito sério.
Transcende a tesoura, o pente, o esguichador de água.
Não é fácil deixar um outro homem acariciar sua cabeça, passar os dedos entre seu cabelo cheio de shampoo, massagear seu couro cabeludo.
É preciso entrega, confiança plena.
Por isso, corto o cabelo no mesmo lugar desde minha mais distante lembrança da infância. Desde que o dono do hoje “grande salão unissex” atendia em um pequeno cômodo em um posto de gasolina.
Acompanhei o crescimento profissional dele.
Vi o nascimento dos filhos dele. Depois, dos netos.
Nossa intimidade chegou a um determinado ponto que certa vez ele me chamou para ver no computador fotos da viagem que fez com a mulher para Natal.
Em todas estava vestido com uma mini sunga que desaparecia escondida por uma enorme barriga. O constrangimento por vê-lo vestido em roupas mínimas em cima de um buggy ou de um camelo nas dunas de Genipabu não foi maior do que o respeito pelo meu companheiro de tantos anos.
Pois bem. Estava no Morumbi um dia desses. Atolado em trabalho. Mas precisava cortar o cabelo. Estava dando voltas atrás da orelha. É horrível.
Sai correndo do trabalho pensando na tesoura correndo sobre minha cabeça pra lá e pra cá. Já me sentia mais leve. Nem pensei em marcar hora. Sou de casa.
Cheguei ao salão pouco tempo antes do fechamento e ainda na entrada me senti feliz em ver aquela figura tão conhecida. Já um senhor, alguns quilos acima do peso, cabeça branca, como que dançando em volta da cadeira onde alguém tinha as madeixas meticulosamente aparadas. Conhece aquele terreno como poucos.
Estendo a mão para um cumprimento e digo a frase de sempre que se tornou uma espécie de código nosso:
-E aí, vamos lá?
Pela primeira vez em trinta anos o notei com o semblante um pouco mais tenso.
E ouvi o que jamais imaginei ouvir um dia.
-Hoje não dá. Estou enrolado.
Foi como se um tijolo caísse nas minhas costas.
Como se ele tivesse cravado aquela velha tesoura no meu coração.
Na calçada, com os olhos ainda lacrimejando, prometi que jamais voltaria.
Meu cabelo dobrou a segunda volta atrás da orelha. Irrita demais.
Acho que vou dar uma nova chance para nossa amizade.
Mas desta vez, serie menos emotivo, mais racional. Vou marcar hora.
Quem sabe com o tempo as coisas não voltam ao normal.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Nasce uma estrela

Que atire a primeira pedra quem nunca quis ser uma estrela da música, o líder excêntrico de uma banda de rock n´roll. Quem nunca cantou e dançou sozinho ao som de um CD qualquer. Quem nunca se imaginou quebrando uma guitarra alucinado com o fim de um grande show em um estádio lotado por mulheres seminuas que se contentariam com uma toalha molhada pelo seu suor. E minutos depois se deu conta que vai tomar uma bronca da mãe se continuar com os pés encardidos em cima daquele lençol branco dos Trapalhões que cobre sua cama.
A vida é assim, cheia de contrastes. Mas, para quem sonha com a fama, faço uma recomendação. Sigam sonhando. Uma hora o sucesso bate na sua porta.
De maneira muito modesta gostaria de informar que subi de patamar.
Estou agora entre os maiores e melhores do showbizz.
Minha estréia ocorreu faz uns 15 dias. Estava na platéia de um show dos Titãs no Citibank Hall, antigo Palace. Mal sabia eu que seria a última vez que estaria do lado de vocês, espectadores.
Sábado à noite, a apresentação estava rolando como programado.
Quando o show se encaminhava para o fim, parte do público que estava sentado em cadeiras se levantou e foi para frente do palco. Eu entre eles.
A banda começa a tocar um sucesso chamado Televisão. É aquela música que diz no refrão: “Ô Cride, fala pra mãe”. Tudo muito bom, mas algo estava diferente. Eu não sabia como nem porque, mas era minha hora de brilhar. Pois bem.
Vejo o tênis laranja de um dos vocalistas da banda caminhar em minha direção. Vejo o dedo dele apontado pra mim. Vejo o microfone na minha boca.Vejo todos me olhando.
Foram poucos segundos, mas deu tempo de pensar:
-Agora é a virada. Se me sair bem, nunca mais vou trabalhar das 8hs às 18hs, de terno e gravata. Vou virar popstar. Dar entrevistas, quebrar quarto de hotel, arremessar a tevê pela janela, dar escândalo no avião, agredir fãs, etc.
Enchi o pulmão e cantei sozinho a seguinte frase:
- E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais!!!!!!!
Foi incrível ouvir minha própria voz explodindo nas caixas de som, apoiada por bateria, guitarras e baixo de uma banda de verdade, dentro de uma casa de shows.
Eu nem acreditava naquilo. Por algum tempo fiquei me perguntando se tinha acontecido mesmo. Será que sonhei?
A surpresa foi rapidamente embora. Afinal, um artista como eu não pode se deslumbrar tão facilmente assim. Dali em diante teria que me acostumar com o assédio. Preparado para encarar esse desafio tentei ir ao camarim falar com meus novos colegas de trabalho, os Titãs. Queria dar o meu toque em algumas coisas que, enquanto artista, penso que poderiam ser melhoradas.
Não quiseram me receber. Entendo. O novo sempre assusta. Aguardo o contato para receber agenda de shows, apresentações na tevê. Preciso me programar.
Opa. Esperem um pouquinho, por favor. Estão me chamando.
Desculpem, vou ter que parar o texto por aqui.
Tenho que descer de cima da cama. Meus pés encardidos estão sujando o lençol.
A gente se vê por aí. Foi um prazer receber vocês mais uma vez. Valeu São Paulo!

sábado, 26 de setembro de 2009

Isso é impulso

Os índices elevados de colesterol no sangue diagnosticados em exames de rotina me recobraram uma reflexão antiga, que me acompanhou ao longo da vida. Com menor ou maior intensidade.
A necessidade de praticar exercícios físicos. Sou um multi atleta por formação.
Já fiz futebol de salão, judô, capoeira, vôlei, handebol, musculação, alongamento, natação, futebol de campo. Mas, se em alguma dessas modalidades durei mais de 90 dias, foi muito. Enjoa.
No meu íntimo, sabia que quadras, campos e piscinas não são meu habitat.
Assistir aos Jogos Olímpicos comendo uma pacote de bolachas no sofá já me deixa um pouco cansado. Minha natureza pede que permaneça sempre quieto, que me movimente lentamente e acondicione em minha cintura a maior quantidade possível de energia proveniente de alimentos extremamente gordurosos como salgadinhos, embutidos, pães, refrigerantes e doces.
Mas, com o passar do tempo, a conta fica cara, como mostraram meus exames.
Até sair do médico ainda tinha a esperança que ele me mandasse ficar ainda mais distante dos exercícios. Para não forçar o coração, ué! Que nada:
-Você precisa retomar atividades físicas imediatamente.
Como já tinha me matriculado na academia umas 12 vezes na última década e gastei por lá em multas para cancelamento daqueles planos anuais uma quantia que talvez me permitisse hoje comprar um apartamento, logo descartei a idéia.
-Vou correr na rua!
Beleza. Tentei fazer isso à noite, na volta do trabalho. Não foi possível. O sofá é muito mais atraente depois de 10 hs de trabalho. Nem que um guindaste me carregasse pra fora conseguiria me exercitar.
Resolvi então que tentaria outra forma. Correr logo cedo.
Antes de dormir me lembrei de um artigo do médico Drauzio Varella em que ele contava que se parasse pra pensar antes de sair pra correr de manhã, voltava pra cama.
O relógio desperta. São seis de manhã. Evito qualquer pensamento, sobre qualquer coisa.
Sem escovar os dentes ou pentear o cabelo, visto o shorts, calço o tênis e saio correndo.
Só acordei mesmo depois de uns 5 minutos de corrida:
- O que estou fazendo? Pra que todo esse esforço?
Mais cinco minutos e avisto um mendigo dormindo como um bebê na marquise de uma loja ainda fechada. Por alguns instantes passa pela minha cabeça a possibilidade de sacar 5 reais do bolso, pagar por uma beirada no cobertor e dormir alí mesmo, na esquina, até o trânsito me acordar.
Mais cinco minutos e me lembro daquelas reportagens com depoimentos de gente viciada em corrida, que sofre crise de abstinência quando não se exercita:
-Porque não comigo? Porque me viciei em frituras, não em corrida?
Cinquenta minutos depois estou de volta. Revigorado, feliz por ter vencido meu próprio limite.
Já pensando em fazer o mesmo percurso em um tempo menor no dia seguinte.
Portanto, se algum dia cruzar às 6 da manhã com alguém correndo com os olhos fechados, camiseta de pijama, shorts, cabelos pro alto e bafo de travesseiro, sorria
Isso é impulso!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Vamô virá!

Contei essa história rapidamente no Sofá Bandeirantes do último domingo, mas como o tempo é curto no rádio, volto ao tema com mais espaço.
Recuamos para 2006. 31 de março. Aproximadamente duas da tarde de um dia de céu nublado e calor. Estava na sede da prefeitura de São Paulo. Edifício Matarazzo. Aguardava ansiosamente uma definição sobre o meu futuro. Isso mesmo. Afinal de contas, tinha um rotina há dois anos que seria inevitavelmente quebrada naquele dia. A ruptura se daria com a renúncia do então prefeito da cidade. Durante dois anos meu trabalho como repórter foi acompanhar a agenda de José Serra. Com a proximidade do período limite para que os candidatos deixassem os cargos que ocupavam se quisessem disputar a eleição daquele ano a ansiedade cresceu. Serra vai renunciar. Será candidato a Presidência?
A novela se arrastou por meses. Todos sabíamos que teria um final, qual seria o final.
Só não sabiamos quando e onde. Só isso.
Às duas da tarde do dia 31, já com o estômago desgastado pelo constante sentimento de ansiedade, chega a informação de um assessor do prefeito:
-Sigam para o Anhembi. É lá. É já!
Foi a senha para uma correria tremenda. Os jornalistas se atropelavam.
Enquanto tentava pular por cima de algum colega, pensei:
-Porque tão longe? Será que vai dar tempo de chegar? Qual o caminho mais curto e rápido? E se eu perder o anúncio?
Os carros dos jornalistas estavam estacionados no calçadão em frente a sede da prefeitura.
O espaço, no entanto, estava ocupado por uns 4, 5 mil manifestantes.
Eram professores da rede municipal. Tantos que só se via o capô dos carros.
Animados por um caminhão de som, pediam aumento de salário.
Para encontrar a saída em meio a multidão os motoristas decidiram sair em comboio do calçadão. Como o número de veículos era grande, os manifestantes abriram caminho.
Perdi a comitiva enquanto guardava a bolsa no porta-mala.
Tive que atravessar sozinho um mar de professores raivosos.
Que não queriam me deixar passar, embora meus apelos fossem tão dramáticos quanto os de um ator mexicano:
- Por favor gente. Sou trabalhador como vocês!
Compreensão zero. Um deles, que parecia o Tony Garrido, do Cidade Negra, quebrou o retrovisor do lado do passageiro. Os outros gritavam:
-Imprensa vendida! Burguês! Aqui não passa!
Consegui visualizar a rua uns 5 minutos depois.
Quando estava convencido de que sairia vivo dalí, dei de cara com um mini poste de concreto.
O jeito? Dar ré. Mas no meio de todo aquele povo? Sim, isso mesmo.
Irritados com minha manobra eles começaram a bater com bandeiras de plástico no carro e gritar:
- Vamô virá, vamô virá, vamô virá!
A essa altura confesso que já tinha entregado os pontos.
Só pensava em uma forma digna de chegar na rádio e pedir as contas.
Obviamente, depois de o Corpo de Bombeiros desvirar meu carro e me remover de lá.
Eis que uma voz, do alto do caminhão de som dos grevistas pede calma.
Pensei que fosse Deus, tamanho era meu desespero.
Mas não. Era o presidente do Sindicato dos Professores.
Como Moisés abriu o Mar Vermelho para o povo de Israel, um caminho se abriu pra mim no calçadão da prefeitura.
Voando, cheguei ao Anhembi a tempo de acompanhar a renúncia ao vivo.
Amém.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Criptonita

Algumas coisas bobas, aparentemente fáceis de serem feitas,
dão muita preguiça. Duas em especial me causam repulsa.
Tirar dinheiro no caixa eletrônico e colocar gasolina no carro. Chega a dar ânsia.
Sendo assim, minha carteira e o tanque do meu carro vivem vazios.
Com freqüência pago contas de R$ 1,20 ou R$ 2,80 com cartão de débito.
Finjo que nem percebo a cara feia do comerciante que, com essa quantia, não deve sequer pagar a taxa da administradora do cartão. Azar o dele.
Já emiti, inclusive, um cheque de três reais em um pedágio da Ayrton Senna.
Disse ao funcionário que a única alternativa seria voltar de ré até São Paulo, já que ele não me deixou fazer um retorno.
O caixa funciona pra mim como a criptonita para o Super-Homem. Tira a força.
Parece que estou desperdiçando tempo de vida enquanto teclo senhas de letras, números, etc. Sinto como se a portinha por onde saem as notas fosse se abrir e uma mão me acertará um murro na boca do estômago.
Por raiva é que minhas senhas são todas palavrões. Algumas, menores. Por exemplo: Senha de duas letras: C-U. Senha de três letras: F-D-P ou P-Q-P.
E o tempo que se perde em postos de gasolina?
Geralmente percebo que o carro está seco de manhã quando estou atrasado e tenho que optar: café da manhã ou álcool? Tomar banho ou pôr gasolina?
Sempre tive orgulho de circular dias com o tanque zerado.
Me sentia superior, mais seguro e esperto do que os bobos que se assustam quando a luzinha vermelha acende no painel.
Até semana passada, quando o carro apagou na JK. Sexta-feira, 17h30.
Pensei que nunca fosse acontecer comigo. Meu parceiro me deixando na mão?
Tentei fazê-lo funcionar em vão. Sorte que um sujeito parecido com o Rolando Boldrin e um motoboy me ajudaram a empurrá-lo até a calçada.
Comprei um pouco de álcool no posto.
O coitado bebia como se fosse um camelo que atravessou o deserto.
Ah, ia me esquecendo. O saquinho de álcool custou R$ 4,00.
Paguei com cartão de débito.
P-Q-P.

domingo, 6 de setembro de 2009

Supermercado

- Iogurte sa-sabor de amora... só R$ 0,75...não pe-perca....já tem gente le-levando de caixa...vai acabar ra-rapidinho...
Foi a primeira coisa que ouvi no sistema de som do supermercado.
O anúncio do locutor meio gago era um prenúncio do que viria a seguir.
Faz tempo que deixei de freqüentar as lojas das grandes redes.
Prefiro as pequenas vendas perto de casa, mas dia desses precisava comprar algumas coisas que só encontraria lá.
O arrependimento bateu já na chegada. Uma vontade incrível de deitar ali mesmo, na esteira rolante.
-Quanto tempo mais consigo sobreviver com aquele meio copo de requeijão, cebola, alho e água que tenho em casa?
Convencido de que não poderia deixar a preguiça vencer, peguei logo um carrinho.
Meio manco de uma rodinha, mas é com ele mesmo que vou em frente.
O locutor gago é uma espécie de guia turístico. É como aquele cara que toca a flauta e hipnotiza a cobra. A cada promoção anunciada, vê-se uma mini corrida de carrinhos.
Velhinhas se espremendo aqui, respeitáveis senhores se acotovelando acolá.
Bisteca de porco, piscina regan, pen drive, espuma de barbear, pilha palito.
Não importa o produto, se precisa ou não dele.
Vale o prazer imediato de sentir que estamos comprando qualquer coisa por um preço menor do que efetivamente custa.
Para fugir desse risco é que tento fazer compras sempre o mais rápido possível.
Mas nem sempre consigo. Tem muita gente folgada no supermercado.
Largam o carrinho no meio do corredor e ficam olhando para a caixa de Sucrilhos como se fosse um diamante.Tira o óculos, olha a lista, põe o óculos, olha o Tony, pega o Sucrilhos, balança, larga o Sucrilhos.
Vencida a sedução das promoções e o congestionamento chega o momento mais delicado dessa odisséia.
A escolha do caixa em que se vai pagar as compras é sempre difícil. As filas são longas.
Então, é preciso usar a sensibilidade, o sexto - sentido, ouvir o que o coração tem a dizer.
Fazer uma relação entre a cara do sujeito, a quantidade de objetos no carrinho, a provável habilidade para empacotá-los rapidamente. É um desafio.
Na minha primeira opção, uma rapaz oriental,com cabelo tingido de loiro e rabo de cavalo, usava uma papete nos pés e pochete na cintura. O único produto que ia levar era um coleira de cachorro. Devia ser um cãozinho pequeno. Poodle, chihuahua.
Apesar disso, senti que não era uma boa. Meu coração era quem estava falando.
Optei por uma fila ao lado.
Na minha frente uma mãe com o filho, já com seus 25 anos, camisa da seleção e boné virado pra trás.Foram rápidos, como modéstia a parte, já havia previsto.
Nesse curto espaço de tempo, porém, pude notar como os supermercados tentam disfarçar a pequena oferta de funcionários para os caixas. Todas as filas têm uma tevê. Na minha passava um programa sobre Amsterdam. Palavra da apresentadora:
- Você precisa conhecer Amsterdam. Politicamente avançada, culturalmente agitada e multiétnica. Fui acordado da minha viagem para a Holanda pela cliente atrás de mim que falava ao celular e levava entre muita bebida, dois sacos de carvão:
-Ninguém chegou pro churras? Marquei pras três horas, meu!
Minha hora de pagar. No caixa do lado direito, a demora do japonês causava uma fila enorme.
Ele já tinha sacado uns 8 cartões da pochete e nenhum dava certo. Minha intuição não falhou, modéstia a parte, mais uma vez.
No do lado esquerdo, um daqueles empacotadores idosos contratados pelo supermercado.
Cabelos brancos, mãos trêmulas, mas um olhar desafiador. Como se desprezasse a capacidade de um jovem inexperiente como eu.
-Ah, velhinho. Vai ver o que é bom pra tosse. Pra sua tosse!
Começou o duelo e meus dedos deslizavam como nunca entre os saquinhos de plástico.
Embora tentasse me acompanhar, o senhor viu que a competição era desigual.
Estava inspirado. Queria me superar e mostrar como se guarda compras com rapidez.
Com a mesma agilidade, digitei a senha do cartão e fui embora cantando rodinhas do meu carrinho manco.
Sacolas no porta-malas, agora só ir embora. Não volto tão cedo.
Mas a cancela que guarda o estacionamento não abre. Um funcionário aparece minutos depois.
- O senhor validou o tíquete?
-Nunca precisei fazer isso!
- Pois é, mas desde o mês passado adotamos esse procedimento pra evitar a utilização irregular do nosso estacionamento.
- Mas gastei uma grana em compras aqui!Está tudo aí atrás!
-Desculpe senhor. Sem a validação do tíquete no balcão ao lado do McDonald´s a cancela não abre.
Ouço uma buzina.
No carro de trás está o japonês, com cabelo tingido de loiro e rabo de cavalo, que usava uma papete nos pés e pochete na cintura. Está impaciente com minha demora. Fazer o quê?
Enquanto estou esperando o carimbo no papel vejo de novo aquele olhar desafiador que pensei ter deixado para trás.
Com um sutil sorriso no rosto, ele guardava com as mãos trêmulas a gorjeta que acabara de ganhar.
Haverá revanche e verá o que é bom pra tosse. Pra sua tosse!